Jojo Wachsmann: Vamos falar sobre os fundos que estão caindo?

Por Jojo Wachsmann, sócio-fundador e CIO da Vitreo.

Perder parte do próprio patrimônio com investimentos sempre será algo mais impactante, emocionalmente falando, do que atingir uma vitória dentro do mercado financeiro 

Ninguém investe o próprio dinheiro esperando perder uma parte do seu capital no mercado financeiro. 

Eu nem precisaria falar isso aqui porque essa declaração soa óbvia. 

Mas, de verdade, quero saber: o que você espera do mercado? 

Você espera lucros perenes, mesmo quando os cenários econômico e político se mostram extremamente instáveis? 

Tenho visto tantos clientes incomodados com os impactos dos últimos movimentos da economia brasileira e global nos fundos da Vitreo, que hoje não poderia deixar de trazer esse assunto para o nosso Diário de Bordo. 

Como gestor dos fundos da casa, da qual também sou CIO, esse é o meu papel. 

Sendo muito franco, confesso que pensei em algumas maneiras para começar a falar sobre o tema, que me coloca numa certa zona de desconforto, mas não encontrei uma abordagem melhor do que a direta. 

Então, sejamos bem sinceros: mesmo o investidor sabendo que garantias de retorno do seu capital não existem, perder parte do próprio patrimônio com investimentos sempre será algo mais impactante, emocionalmente falando, do que atingir uma vitória dentro do mercado financeiro. 

E não sou apenas eu que acredito nisso. 

O grande Daniel Kahneman, ganhador do prêmio Nobel de Economia no ano de 2002, concorda com a teoria. 

Ele até desenvolveu um trabalho bastante interessante a respeito desse ponto, que vale muito a pena conhecer (de maneira muito breve já aproveito o espaço para indicar a leitura do incrível “Rápido e Devagar”, do autor, em que ele fala sobre o tema.) 

E é por isso que hoje vou falar, de maneira muito honesta, sobre os fundos da Vitreo que estão caindo. Porque lidar com os momentos de queda – e principalmente entendê-los – faz parte do jogo de investir. Além disso, é uma chance bastante prática de falar um pouco mais de cenário macroeconômico, que tem tudo a ver com as quedas recentes de alguns de nossos principais fundos. 

Também é bom que se diga que a maioria desses fundos está com rentabilidade positiva desde o início, mas está passando por momentos de turbulência. Selecionei aqueles fundos sobre os quais mais me perguntam nas lives e no meu Instagram. 

Começando pelas teses de tecnologia: 

Tech Asia 

Quando tivemos a ideia de abrir esse fundo, em setembro de 2020, nós analisamos todo o potencial de consumo e de crescimento da China e do continente asiático. O consumo chinês é gigantesco, e as empresas chinesas estão se estruturando e se expandindo pelo mundo. 

Ao analisarmos a economia mundial, vemos duas potências se destacando de forma gritante frente aos outros países: China e EUA. Por isso, acreditamos firmemente na tese. 

Ao analisarmos a performance do fundo, contudo, nos últimos 3 meses, justamente desde a sua máxima cotação este ano (19/fevereiro) até ontem (19/maio), o fundo cai 25,49% enquanto o índice FTSE China Tech (índice de ações chinesas do setor de tecnologia), 27,84%. 

Essa rentabilidade ruim começou após a divulgação de novas regras antimonopólio pelo órgão regulador do mercado na China. É de conhecimento dos investidores que procuram investir no país: sempre existiu o risco de o governo chinês interferir de forma direta ou indireta nas empresas. E isso vem ocorrendo desde o fim de 2020. 

Mas os analistas têm dois pontos de vista sobre essa interferência do governo chinês: 

O primeiro é positivo para o médio e longo prazo, pois tirou as incertezas sobre COMO o governo chinês poderia agir lá na frente em relação às grandes empresas de tecnologia do país. O segundo é que, no curto prazo, essas novas regras afetaram negativamente as empresas que já estavam balançando por conta da rotação setorial. 

Um terceiro ponto importante é que o Tech Asia é um fundo com exposição cambial, e o dólar está caindo quase 9%, de 09/março (quando atingiu a máxima cotação no ano, 5,79) até 20/maio, cotado a 5,27. Essa valorização do real frente à moeda americana impacta diretamente o resultado do Tech Asia e de todos nossos fundos com exposição cambial. 

O que fizemos na carteira do fundo: 

Por uma questão estratégica, alteramos a carteira do Tech Asia para “amortecer” o impacto com China, e a principal mudança foi a compra dos papéis de Samsung e Sony. Além disso, aumentamos a posição de empresas que estão fora do sistema regulatório do governo chinês, mas que ainda têm algum tipo de exposição ao crescimento do consumo do país. 

Abaixo, você pode ver exatamente como estamos alocados com o Tech Asia. Na tabela “ajustes”, estão os percentuais de quanto aumentamos e diminuímos as posições da nossa carteira. Por exemplo, no caso da China, diminuímos a nossa alocação em -18,1%. Empresas, como Alibaba e Baidu, perderam espaço em detrimento da entrada de Samsung (Coreia do Sul) e do aumento da nossa posição em Sony (Japão). 

Vitreo Tech Asia Antes Depois Ajuste 
China 66,60% 48,50% -18,10% 
Taiwan 20,30% 19,50% -0,80% 
Japão 6,60% 12,50% +5,90% 
Coreia do Sul – 10,00% +10,00% 
Singapura 4,20% 8,50% +4,30% 
Israel 1,00% 1,00% – 
Caixa 1,30% – -1,30% 

Continuaremos expostos diretamente a quase 50% do patrimônio do fundo na China, o que é substancial e prova o quanto acreditamos nessa tese para o longo prazo. 

Com as informações que temos agora, essa posição em China está de bom tamanho, pois nos dá margem para pegarmos um belo “Upside” quando a turbulência passar. 

Considerando a perspectiva do fundo para o longo prazo e a manutenção dos fundamentos que embasaram essa nossa tese, e claro, se você acredita que a China continuará crescendo de forma exponencial pelos próximos anos, a minha orientação é que você continue com o investimento no Tech Asia. 

Tech Select 

Desde o seu lançamento, em 08/junho/20, até 19/maio, o Tech Select sobe 40,20% (bruto de impostos). O que é uma rentabilidade excelente. 

Ao analisarmos a performance do fundo, desde a sua máxima cotação este ano (13/abril) até 19/maio, o fundo cai 14,85% enquanto a Nasdaq (bolsa americana com foco em tecnologia) caiu 5,35% em dólares (ou 12,31% em reais). 

E dois são os principais motivos para isso: o primeiro é a valorização do real contra o dólar em 9% nos últimos dois meses, como expliquei acima ao falar do Tech Asia; e o segundo motivo é a famosa rotação setorial pós-pandemia. 

Sobre o primeiro ponto, os ativos do fundo têm exposição cambial e o investimento é feito em reais. Às vezes isso favorece a performance do fundo e às vezes a prejudica. Nesse caso, prejudicou. 

Sobre o segundo ponto, o que ocorre é que, com a retomada econômica histórica dos EUA, o que inclui um certo medo da inflação no país e a reabertura gradual do comércio tradicional, o setor de tecnologia, até então muito premiado pelo apelo stay at home trazido pelo surto de coronavírus, deixa de receber diversos investimentos, que passam a ser alocados nas empresas da velha economia. 

Como o mandato do Tech Select é o de justamente investir nas bigs techs, que têm seus ativos dolarizados, a gente não consegue fugir muito dos efeitos da rotação setorial e da valorização do real frente à moeda norte-americana. 

O que fizemos na carteira do fundo: 

Concentramos nossos investimentos nas principais big techs da tese (Facebook, Apple, Amazon, Netflix, Google e Microsoft), que têm recebido quase 74% do patrimônio do Tech Select, enquanto os papéis menores têm recebido a alocação restante do fundo. 

Para o médio e longo prazo, a gente segue acreditando muito no potencial dos ativos relacionados à tecnologia, que na nossa opinião é fundamental dentro do processo de crescimento que a humanidade tem atravessado e ainda vai atravessar nos próximos anos. 

Tech Games

O raciocínio acima se aplica analogamente ao Tech Games, que investe em empresas de tecnologia e que também expõe seu patrimônio a ativos no exterior, e, em partes, ao fundo Tech Brasil, que também sofreu os impactos da rotação setorial. No entanto, como o Tech Brasil investe o seu patrimônio em ativos de companhias nacionais, não podemos falar em exposição cambial contra ele. Importante ressaltar. 

O que fizemos na carteira do fundo: 

Montamos um book com empresas menores no Tech Brasil, cuja alocação não passa de 15%. No Tech Games, não vimos a necessidade de mudar nenhuma alocação da carteira. 

Ainda sobre o Tech Brasil, acho fundamental ressaltar que a performance do fundo se mantém positiva no ano, e até a cota do dia 18 de maio de 2021 a rentabilidade bruta de impostos foi de 9,43%. 

Se pegarmos os números desde o seu início, em 09 de julho de 2020 até o dia 18 de maio de 2021, o resultado é excelente: 53,08% contra 24,02% do Ibovespa. 

Em termos de rentabilidade para o Tech Games, 16,54% foi a performance bruta de impostos alcançada pelo fundo entre a data de seu lançamento, em 27 de outubro de 2020, e a cota de 18 de maio de 2021. 

As teses se mantêm válidas para o longo prazo, motivo pelo qual eu recomendo a manutenção do portfólio em sua estratégia de investimentos. 

Para saber sobre canabidiol, criptomoedas e muito mais, leia o Diário de Bordo na íntegra: clique aqui. 

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