Will Alves: Resultados de empresas americanas superam estimativas

Por William Alves, estrategista-chefe da Avenue Securities

Tivemos uma semana de altas e baixas, mas com o mercado americano praticamente estável. Hoje, começo citando os surpreendentes resultados das empresas americanas.

Salvo algumas exceções, temos visto resultados trimestrais extremamente fortes, com empresas crescendo lucros e receitas bem acima do esperado. Botando em contexto e em números, a The Earnings Scout estimava que os lucros das empresas do S&P crescessem 12,2% ante o primeiro trimestre de 2020.

Entretanto, até agora 40% das empresas do S&P já reportaram resultados. O que vimos foi um crescimento de lucros de 29,3%. Até o dia 27 de abril, tivemos 180 empresas do S&P abrindo seus números. Destas, 87% bateram as estimativas de lucros, 79% bateram as estimativas de receitas e, ainda, 60% das empresas revisaram para cima suas expectativas de lucro para o segundo trimestre de 2021.

Gráfico abaixo do Deutsche Bank mostra este cenário:

E parte relevante dessa melhor performance vis a vis as expectativas veio dos fortes resultados das big techs americanas. As FAANGM (acrônimo para Facebook, Apple, Amazon, Netflix, Google e Microsoft) seguiram reportando números e lucratividade bem acima da média do mercado.

Gráfico do Alpine Macro evidencia isso:

Conferência Berkshire

Aliás, aproveitando que citei o oráculo de Omaha, Warren Buffet, no sábado tivemos a conferência anual dele para seus acionistas. Sempre bom parar para ouvir o que a experiência de 60 anos como investidor tem a nos ensinar. Para quem não viu, acesse esse link para conferir.

Mudança no paradigma econômico?

Na quarta-feira, o presidente Biden fez seu primeiro discurso ao Congresso detalhando uma agenda ambiciosa que pretende transformar o papel do governo federal. Como comentei acima, temos visto uma disposição muito forte do atual governo de injetar recursos na economia como forma de fazê-la reagir ao solavanco do Corona.

Biden está mudando a lógica que vimos nos últimos 40 anos, de diminuição da intervenção do estado na economia. Do ano de 1933, quando Roosevelt assumiu como presidente, até 1969, quando Lyndon B. Johnson deixou o cargo, vimos o governo americano gastando mais e crescendo. E desde 1981, quando Reagan se torna presidente, até a época de Trump, tivemos quase 40 anos de diminuição do envolvimento do governo federal na vida dos americanos.

Biden está tentando iniciar uma nova expansão, uma mudança de paradigma. Muitos acreditam que isso possa ser um problema, outros enxergam como uma solução.

Desavenças econômicas e conceituais a parte, vale listar os pacotes propostos até agora:

  • US$ 1,9 trilhões em estímulos para economia. Pacote que foi aprovado em março e chamado de Plano de Resgate Americano.
  • US$ 2,3 trilhões é o custo da proposta de reforma e investimentos em infraestrutura chamado de American Jobs Plan.
  • US$ 1.8 trilhões é o custo de gastos sociais divulgado esta semana chamado de American Families Plan.

Somados, temos o montante de US$ 6 trilhões em estímulos os quais seriam pagos através do aumento de impostos a empresas e sobre os mais ricos. O pacote dessa semana (mais detalhes aqui) prevê investimentos em acesso a educação, gastos médicos, expandir benefícios fiscais, entre outros.

Como tudo na vida existem dois lados: se por um lado pode impulsionar os gastos do consumidor, aumentar a educação e reduzir desigualdades; por outro pode reduzir investimentos privados, o empreendedorismo e ainda aumentar a dívida nacional e estimular a inflação.

Dólar cai…oportunidade?

Até como reflexo de mais um pacote, vimos o dólar perder força no mundo todo. O índice dólar que mede o desempenho da divisa americana contra uma cesta de moeda chegou a apresentar queda de 3% desde as máximas atingidas em março.

Contra o Real também não foi diferente, apenas a inflexão (intensidade) foi maior. Apesar da alta de 4.6% acumulada no ano, o dólar chegou a estar se desvalorizando mais de 9% desde as máximas de março (R$ 5.87) até a mínima de R$ 5.33 dessa semana.

Então para quem reclama que o dólar não cai… pois bem, ele caiu.

Dólar versus bolsa

Interessante notar que o dólar caiu frente ao Real e isso se deu novamente, como de praxe, num cenário onde a volatilidade está baixa, o mercado calmo e os bons ventos sopram favoravelmente para o mercado de ações. E o que acontece nesse cenário? Bolsas nas máximas!

O cliente espera para pagar 5% ou 10% mais barato no câmbio, mas acaba comprando ações depois dessas terem subido 20%, 30%. Estou aqui apenas citando algo conceitual, mas que visa te ensinar do seguinte: o Real é uma moeda de risco e anda com os ativos de risco…performa bem quando os ativos de risco vão bem…e por isso não deveria ser a variável chave na hora de você decidir sobre seus investimentos nos EUA. Pense nisso.

Bolsa na máxima não é desculpa

Apesar de muitos olharem um gráfico do S&P e se assustarem pois o mesmo se encontra nas máximas, gosto de lembrar que o índice apesar de ser composto por mais de 500 empresas, possui uma certa concentração.

Isso quer dizer que asa 50 maiores empresas do índice respondem por cerca de 50% da performance do mesmo. Ou seja, as outras 450 empresas respondem pelos outros 50% de performance do índice. Talvez o que esteja nas máximas são as 50 empresas? Será que não existem oportunidades nas demais 450? Ou ainda, saindo do S&P 500, será que não existem oportunidades nos demais 5500 ativos do mercado americano? Pense nisso.

Até semana que vem!!

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