Kinea: presidente eleito terá de fazer ajuste fiscal pelas despesas obrigatórias

São Paulo, outubro de 2026 – O presidente eleito em outubro terá de conduzir um dos ajustes fiscais mais ousados desde a redemocratização e, pela primeira vez, o esforço terá de vir das despesas obrigatórias. É o que conclui a nova edição do Kinea Insights, carta da Kinea Investimentos, que usa o conto ‘A Bela Adormecida’ como analogia. Desde 2014, o governo central só fechou um ano no azul, com um orçamento de gastos rígidos, que fica mais alta a cada ano.

O tamanho do desafio é comparável ao de 1999, o único ajuste grande e duradouro do período. A dívida bruta chegou a 82,5% do PIB, e estabilizá-la exige superávit primário de pelo menos 2% do PIB. O orçamento de 2027, porém, projeta 0,1%, e a Instituição Fiscal Independente (IFI) prevê déficit de 0,6%. “Será a primeira vez que o Brasil tenta um ajuste deste porte sem crise, o FMI e a inflação”, afirma a carta. Há ainda menos espaço do lado da receita, já que a carga tributária beira 33% do PIB.

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A Kinea mostra que, em quarenta anos, todo ajuste de curto prazo veio dos impostos e dos gastos discricionários, os caminhos mais fáceis. Esse espaço se esgotou. Dos R$ 2,83 trilhões de despesa primária previstos para 2027, R$ 2,56 trilhões são obrigatórios. Restam só R$ 143 bilhões de fato livres, e zerá-los não pagaria nem metade da conta. “Por isso, pela primeira vez, o ajuste terá de vir das obrigatórias, e isso muda a natureza política do problema. O de 1999 pesou sobre contribuintes e empresas; este toca aposentados, servidores, beneficiários e parlamentares”, diz o texto.

Entre as medidas, a de maior impacto é a desindexação do salário-mínimo, que hoje reajusta quase metade das despesas obrigatórias. Corrigi-lo apenas pela inflação a partir de 2028 exigiria somente uma lei, sem emenda constitucional. A carta também propõe desvincular os pisos de saúde e educação, focalizar benefícios sociais e revisar os gastos tributários, que somam R$ 544 bilhões. A gestora trata 2027 como um ano de transição e 2028 como o ano da reforma. Pelas contas da Kinea, o ajuste completo de 2 pontos do PIB só seria alcançado em 2029.

A carta avisa que cortar gastos, sozinho, não basta. Sem queda no custo da dívida, um ajuste de 2 pontos ainda deixaria a dívida subindo de 2,5 a 3 pontos por ano. “Dois pontos de ajuste são a condição necessária. A credibilidade que derruba o juro é a suficiente”, resume a Kinea. Para a gestora, há espaço para essa queda: o componente fiscal do prêmio de risco já supera o registrado na crise de 2014–2016.

A Kinea traça três cenários:

  • “O despertar”: o Congresso aprova a reforma em 2027 e a NTN-B longa cai de 8% para perto de 5,5%. A dívida se estabiliza perto de 90% do PIB por volta de 2029.
  • “O sono leve”: o ajuste vem só pela receita e bloqueio de gastos. Os juros caem um ponto e param, e a dívida ultrapassa 100% do PIB no início da próxima década.
  • “Os cem anos”: não há ajuste. A NTN-B passa de 9% e a dívida cruza 100% do PIB por volta de 2030, num quadro de dominância fiscal.

Para a gestora, a oportunidade está entre janeiro de 2027 e meados de 2028, já que quase todo ajuste fiscal deliberado do país nasceu logo depois de uma eleição. “No Brasil, a hora não chega sozinha: constrói-se com diagnóstico compartilhado, com uma coalizão que aceite dividir o custo e com uma sequência que entregue antes de pedir. O conto não termina no beijo: o difícil não é acordar, é não voltar a dormir.”

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