Desconto da bolsa está nos juros, não nas empresas, diz Kinea

São Paulo, setembro de 2026 – A frase “a bolsa brasileira está barata” é a resposta certa para a pergunta errada. É com esse diagnóstico que a Kinea Investimentos abre seu novo Kinea Insights, “O Guia do Mochileiro das Galáxias”, no qual analisa os motivos do desconto frente a outros mercados e defende que o investidor não espere o resultado das eleições para montar sua carteira de ações.

Segundo a gestora, o pleito funcionará como um divisor de águas para o juro longo e, por consequência, para a bolsa, mas o mercado começará a precificar o desfecho bem antes da apuração. A preferência da casa, portanto, é de uma seleção de ativos que atravessem bem qualquer cenário futuro.

O Ibovespa negocia perto de 8x os lucros projetados, contra uma média histórica próxima de 10x. Para a Kinea, porém, o múltiplo baixo não é um veredito sobre a qualidade das empresas, e sim o efeito matemático de uma taxa de desconto elevada: com o juro real longo – descontando a inflação – perto de 8% ao ano, o título público paga, sem risco, quase quatro vezes o crescimento real da economia.

“O investidor não está sendo pago um prêmio extraordinário para correr risco de bolsa: está sendo pago um prêmio baixo sobre uma taxa livre de risco extraordinária. O desconto não está nas ações, está nos juros”, afirma o time de pesquisa da Kinea.

O segundo obstáculo é o lucro. Em dólar, o lucro projetado das empresas brasileiras está 36% abaixo do nível de 2010, o pior desempenho entre os doze mercados analisados pela gestora. E o pouco crescimento está concentrado: na última década, os lucros das empresas de commodities avançaram 16,5% ao ano, enquanto os das domésticas cresceram 3,5%, abaixo da inflação do período. Nas domésticas, parte relevante do resultado operacional se perde na despesa financeira.

“É o mesmo juro cobrado duas vezes, uma no desconto do múltiplo e outra no lucro, e nas duas o acionista paga”, resume a equipe.

A eleição como divisor de águas

No cenário de responsabilidade fiscal, a Kinea vê o juro real longo caminhando para 6%, com expansão de múltiplos, alívio da despesa financeira e retomada do crédito e do consumo, com as empresas domésticas liderando o crescimento de lucros.

Só pela queda da taxa, o valor presente das ações subiria de 10% a 15%. No cenário de deterioração fiscal, a NTN-B caminha para 9% e as mesmas alavancas operam na direção contrária.

“A eleição não muda a bolsa por decreto, mas define qual das duas trajetórias fiscais o país vai seguir. (…) Até a definição, os dois futuros convivem no mesmo preço; depois dela, só um existe”, avalia o time de pesquisa da Kinea.

Como montar a carteira antes do voto

“Não sabemos qual política econômica o país vai adotar, e ninguém sabe. A tentação natural é esperar a definição para então montar a carteira, mas essa é a única alternativa que sabemos estar errada”, diz a equipe.

Posicionar-se antes, ressalta a gestora, não significa apostar em um resultado. A proposta é uma carteira com duas frentes complementares, com pesos distintos: empresas que se sustentam pelos próprios fundamentos, com geração de caixa robusta e crescimento previsível de lucros, e setores mais penalizados pelo longo ciclo de juros altos, cujos valuations comprimidos oferecem potencial relevante de valorização caso o país recupere uma agenda econômica crível.

A primeira cesta reúne negócios cujo retorno não depende de acertar o ciclo. Em utilities, a remuneração está atrelada à base regulatória de ativos, corrigida pela inflação, e o prêmio sobre a NTN-B é hoje elevado. Entre os destaques estão a Sabesp, cuja base regulatória deve quase dobrar até o fim da década após a privatização, e a Eneva, que terá cerca de 80% da receita fixa e contratada após os leilões de reserva de capacidade.

A cesta inclui ainda as construtoras do Minha Casa, Minha Vida, que combinam geração de caixa, dividendos e crescimento, sustentadas por um programa com taxas subsidiadas pelo FGTS e que atravessou diferentes governos. “Num cenário fiscalista o setor ganha duas vezes. A NTN-B cede, e o prêmio de risco cede junto”, observa a equipe sobre as utilities.

A segunda cesta concentra setores cujos preços tratam um cenário transitório como permanente. Os bancos são a principal alavanca: com juros menores, o crédito volta a crescer, a inadimplência recua e o mercado de capitais reaquece. O varejo, pior setor do ano, pressionado por endividamento das famílias, concorrência asiática e apostas online, é o que tem mais alavancagem operacional e financeira ao ciclo.

Na indústria, várias empresas negociam abaixo das médias históricas. A exceção é a Embraer, cuja tese se apoia em uma dinâmica global, com fila de pedidos superior a uma década e crescimento simultâneo em aviação comercial, executiva e defesa.

“Numa bolsa em que quase todas as teses dependem dos juros, não depender deles vale um prêmio”, afirma o time de pesquisa.

Para a Kinea, a decisão de investir em bolsa passa menos pelo múltiplo e mais pelo rumo fiscal do país. Se o juro longo cair, múltiplos sobem, balanços se aliviam, o crédito destrava e os lucros voltam a crescer. Caso contrário, o desconto atual é apenas preço justo. “A pergunta certa não é se a bolsa está barata. É se o próximo governo vai transformar o Brasil num país que não precisa pagar mais de 7% acima da inflação para financiar a própria dívida”, conclui a equipe de pesquisa da Kinea.

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