90% dos profissionais usam IA no trabalho, mas apenas 5% das empresas conseguem adotar a tecnologia em larga escala, aponta estudo do MIT

Relatório global revela avanço da “shadow AI”, mudanças nas exigências de contratação por profissionais qualificados em inteligência artificial e impactos seletivos na força de trabalho

O uso de inteligência artificial já faz parte da rotina de mais de 90% dos profissionais. Nesse cenário, ferramentas de IA generativa ganham espaço no dia a dia de trabalho, mas apenas 5% das empresas conseguiram transformar o uso da tecnologia em soluções corporativas com impacto real nos fluxos de trabalho. O dado integra o relatório State of AI in Business 2025: The GenAI Divide, conduzido pelo MIT Project NANDA, iniciativa vinculada ao Massachusetts Institute of Technology e disponível no Brasil por meio do CNEX, plataforma de desenvolvimento executivo e relacionamento estratégico que conecta empresas aos mais relevantes insights globais.

A pesquisa mostra que, embora apenas 40% das empresas tenham adquirido assinaturas corporativas oficiais de Modelos de Linguagem de Grande Escala (LLMs) — sistemas de IA treinados para compreender e gerar linguagem natural —, praticamente todos os profissionais entrevistados relataram usar com frequência ferramentas pessoais de IA em atividades de trabalho.

Quando esse uso ocorre fora das plataformas e políticas oficiais das empresas, o movimento configura o que o estudo chama de “shadow AI economy”. O termo descreve uma espécie de economia paralela de inteligência artificial dentro das organizações, na qual colaboradores recorrem, por conta própria, a ferramentas de IA para executar tarefas, muitas vezes sem conhecimento ou governança formal das empresas.

“Existe uma desconexão clara entre o que as empresas implementam formalmente e o que os profissionais realmente utilizam. Colaboradores já cruzaram essa divisão por conta própria, buscando produtividade e agilidade, enquanto muitas organizações ainda enfrentam dificuldades para integrar soluções oficiais aos seus processos”, afirma Douglas Souza, CEO do CNEX e CEO da MIT Sloan Management Review Brasil.

O relatório revela que a resistência a novas ferramentas, preocupações com qualidade de modelo e experiência do usuário estão entre as principais barreiras para ampliar projetos internos com IA. O estudo também aponta que muitos profissionais que demonstram ceticismo em relação às ferramentas corporativas são usuários intensivos de soluções como o ChatGPT em âmbito pessoal, citando maior flexibilidade da ferramenta, familiaridade com seu uso e interface, além da qualidade percebida dos resultados obtidos.

A preferência dos usuários varia conforme o tipo de tarefa. Para atividades rápidas, como redação de e-mails e análises simples, cerca de 70% preferem IA. Já em projetos complexos e de longo prazo, a preferência por humanos supera a IA por ampla margem, evidenciando limitações atuais relacionadas à memória, adaptação e aprendizado contínuo.

No campo do emprego, o estudo indica que não há evidências de demissões em massa decorrentes da inteligência artificial generativa. As reduções observadas se concentram em funções já padronizadas ou historicamente terceirizadas, como atendimento ao cliente e processamento administrativo, com impacto estimado entre 5% e 20% nessas áreas em empresas mais avançadas no uso da tecnologia.

Por outro lado, a pesquisa aponta mudança relevante nos critérios de contratação. Executivos destacam a alfabetização em IA como competência básica desejável, especialmente entre profissionais mais jovens. Em setores como Tecnologia e Mídia, mais de 80% dos líderes acreditam em redução no ritmo de contratações nos próximos dois anos, enquanto segmentos como Saúde e Energia não projetam mudanças significativas.

“O impacto não está acontecendo por substituição direta em larga escala, mas por reconfiguração de competências e redução de gastos externos. As empresas que capturam valor ao utilizar IAs estão menos focadas em cortar pessoas e mais concentradas em eliminar contratos de BPO, modelo de terceirização de processos de negócio, e reduzir a dependência de agências externas”, afirma Souza.

De acordo com o levantamento, organizações que conseguem ampliar o uso de IA com sucesso adotam três práticas centrais: descentralizam a identificação de casos de uso para gestores de linha, exigem forte integração aos fluxos existentes e priorizam soluções capazes de evoluir com feedback interno.

Para a área de RH, o desafio passa a ser duplo. De um lado, desenvolver competências internas compatíveis com o novo ambiente tecnológico. De outro, redesenhar funções para incorporar sistemas inteligentes como parte da força de trabalho ampliada.

“Não se trata apenas de adotar tecnologia, mas de preparar lideranças e equipes para operar em um ambiente híbrido, onde sistemas aprendem, retêm contexto e executam tarefas com crescente autonomia. O RH terá papel central na travessia dessa divisão”, conclui Souza.

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