A história dos impérios revela um paradoxo: a acumulação de poder econômico e militar que sustenta a expansão é a mesma que suscita sua implosão. No caso do império norte-americano, a erosão do tecido social interno e a crescente incapacidade de sustentar um pacto simbólico entre classes evidenciam o colapso de um modelo. A desigualdade crescente não apenas minou a promessa meritocrática que legitimava o capitalismo estadunidense, como produziu um ressentimento difuso que corroeu as bases do consenso político.

1. Plataformas e desintermediação: o fim da pequena burguesia

As plataformas digitais, que em sua gênese foram apresentadas como democratizadoras do acesso à informação e ao consumo, instauraram um processo radical de desintermediação. Esse fenômeno dissolveu não apenas os antigos intermediários comerciais, mas também estruturas de classe que garantiam a coesão social, como a pequena burguesia e os estratos de gerência. Ao reduzir empresas a algoritmos e logística automatizada, as plataformas eliminaram milhares de cargos médios e de direção, erodindo a “pirâmide social” que sustentava o mito da ascensão pelo trabalho. Restaram, de um lado, elites corporativas hiperconcentradas; de outro, uma massa precarizada em empregos sem horizonte de mobilidade. A desintermediação das mídias contribuiu também para a formação de discursos emergentes, antes suprimidos pelos conglomerados de comunicação.

2. Quantitative easing e acesso desigual ao capital

Após a crise de 2008, o quantitative easing (QE) se tornou a principal ferramenta de estímulo econômico. No entanto, o afrouxamento monetário trilionário realizado pelo banco central americano não democratizou o crédito: reforçou o acesso privilegiado das grandes corporações e fundos de investimento ao capital barato. As famílias endividadas continuaram submetidas a taxas altas de financiamento, enquanto empresas listadas em bolsa recompravam ações e ampliavam seus ativos, em favor do rentismo. Criou-se, assim, uma economia bifurcada, onde a abundância de liquidez alimentou a concentração de riqueza, ampliando o fosso entre Wall Street e Main Street. O ressentimento social emergiu da percepção de que o Estado servia como “banco central da elite”.

3. Políticas fiscais regressivas

O sistema fiscal norte-americano sob a gestão de Bush e Trump , inspirado no trickle-down economics, ou reagonomics, reduziu a carga tributária sobre grandes corporações e sobre a renda do capital, deslocando o ônus para indivíduos e para o consumo. Essa regressividade corroeu a legitimidade do contrato social: enquanto conglomerados globais se beneficiavam de paraísos fiscais e deduções agressivas, trabalhadores viam seus salários corroídos e sua contribuição tributária aumentar.

4. Déficit fiscal e juros altos

A insistência em financiar déficits fiscais crescentes com emissão de dívida tornou o país refém dos próprios credores. O aumento das taxas de juros, adotado para conter a inflação e manter a atratividade dos títulos do Tesouro, drenou recursos do orçamento para o serviço da dívida, e deixou o custo de endividamento dos americanos mais alto, impactando principalmente o financiamento de moradias e bens duráveis, reforçando a percepção de um modelo que existe apenas para sustentar credores e mercados financeiros, não cidadãos. O déficit, ao troco de pouco serviços públicos, longe de ser instrumento de crescimento, tornou-se símbolo de decadência.

Queda do império americano é resultado da implosão interna produzida pela desigualdade.

5. Guerras e o fim da coesão nacional

Historicamente, guerras externas serviram para unificar a sociedade americana em torno de uma identidade comum. Do Vietnã ao Afeganistão, contudo, esse efeito de coesão se desfez. As guerras contemporâneas não apenas perderam sua capacidade de gerar narrativas heroicas, como expuseram a inutilidade de sacrifícios humanos e financeiros em conflitos sem vitórias claras. O militarismo deixou de ser cimento nacional e passou a ser percebido como indústria autônoma, beneficiando apenas uma elite oligarca.

6. O Estado como pura força

No plano ideológico (e esquerdofóbico), consolidou-se a convicção de que políticas públicas não poderiam confrontar o orgulho individualista, evidente nos embates sobre o Obamacare. Cabe ao Estado apenas o papel de aparato policial e regulatório da ordem vigente, sem horizonte redistributivo ou projeto comum. O Estado, reconhecido pela força, é amado ou rejeitado, conforme a visão política. Com essa limitação de escopo, o que restou visível foi a promoção da desigualdade.

Conclusão

A queda do império americano não se deve apenas a forças externas ou à ascensão de rivais geopolíticos. É sobretudo resultado da implosão interna produzida pela desigualdade. As plataformas digitais desestruturaram as classes intermediárias; o quantitative easing e as políticas fiscais, assim como o déficit e os juros altos contribuíram para o crescimento da desigualdade. A cultura capitalista, que desconfia do Estado como provedor de serviços públicos e rede de suporte, contribuiu para que o mesmo fosse percebido apenas como força que serve a oligarcas e endivida a nação. Nem as guerras, que serviam para unificar a nação, cumprem mais esse efeito. A ascensão do modelo chinês, que ameaça a supremacia americana na corrida tecnológica, apenas tornou isso evidente. Trata-se de uma ferida narcísica sem precedentes.

O ressentimento social, alimentado por essa conjunção de fatores, e instrumentalizado pelo trumpismo, fez os Estados Unidos querer pôr fim a ordem global da qual é maestro e fiador. O ideal de Estado, amado e odiado pela autoridade que exerce, colapsa nas suas próprias contradições internas, enquanto a polarização política se agrava.

Por fim, estudos mostram uma correlação entre a desigualdade e a polarização política. Nas metrópoles, dada a forma distinta como é enxergada as causas da desigualdade, o ressentimento condiz com um padrão mais alinhado com a esquerda progressista, tendo como alvo os ultra ricos. Enquanto nas cidades menores e mais rurais, o voto tende a se alinhar com o conservadorismo, que vê como ameaça o ingresso dos imigrantes, assim como as pautas das minorias. As políticas econômicas vigentes, de Trump 2, no país tendem a agravar ainda mais esse cenário de desigualdade, assim como a manutenção dos discursos polarizantes, e ultimamente a deterioração do tecido social.

Descubra mais sobre Crania

Assine agora mesmo para continuar lendo e ter acesso ao arquivo completo.

Continue reading