Michel Foucault é, segundo o Google Scholar, o filósofo mais citado do mundo. Essa estatística não é gratuita: o autor de Vigiar e Punir e A História da Sexualidade revolucionou nossa forma de pensar o poder, o saber e o sujeito. Mas há um aspecto menos conhecido, e muitas vezes desconfortável, de sua trajetória intelectual: sua aproximação ao neoliberalismo após Maio de 68.
É verdade que Foucault jamais se declarou neoliberal. No entanto, ao estudar o surgimento dessa racionalidade governamental em seus cursos no Collège de France, especialmente em Nascimento da Biopolítica (1978–1979), ele não a tratou como uma patologia ou regressão. Ao contrário: viu no neoliberalismo alemão (ordoliberalismo) e, sobretudo, no americano (escola de Chicago), um deslocamento profundo nas formas de governar — um novo modo de subjetivação, em que o homo oeconomicus não é apenas um agente de troca, mas um empresário de si mesmo.
Depois do fracasso das utopias revolucionárias em 1968, Foucault pareceu buscar outros caminhos para pensar a liberdade. Decepcionado com os discursos totalitários travestidos de emancipação – foi em 1975 que Arquipélago Gulag de Alexander Soljenítsin foi publicado – ele passou a observar com mais atenção formas de governo que operavam sem coerção direta, organizando a conduta dos indivíduos por meio de incentivos, escolhas e cálculos. O neoliberalismo, para Foucault, tornava-se interessante não por ser um ideal político, mas por representar uma nova maneira de formar sujeitos.
Essa abertura, por parte do pensador, pode também ser creditada ao contexto politico francês, Foucault nutria aversão por François Mitterrand, então líder da esquerda francesa, a quem via como representante de uma racionalidade estatista e conservadora, disfarçada de progresso. E viu com interesse o governo de Valéry Giscard d’Estaing, presidente francês de 1974 a 1981, que representou uma ruptura com o gaullismo e ensaiava uma governamentalidade menos autoritária, atacando os preconceitos sociais, e que durante o seu governo legalizou o aborto, liberalizou contraceptivos, descriminalizou o adultério e deu reconhecimento legal ao divórcio.
Defender o neoliberalismo, nesse contexto, não significou aderir a um programa partidário ou ideológico, mas reconhecer sua capacidade de ler o mundo contemporâneo: um mundo onde a norma substitui a lei, o desempenho substitui a obediência, e a liberdade se torna técnica de governo. Foucault viu aí não apenas um risco, mas uma chave crítica.
Em tempos de polarização simplificadora, recuperar essa leitura foucaultiana do neoliberalismo é urgente. Não para celebrar o mercado como fetiche, mas para compreender que o poder não desapareceu: ele apenas se sofisticou. E talvez, paradoxalmente, seja ao entender o neoliberalismo com as ferramentas do maior crítico da última modernidade que possamos imaginar alternativas a ele.
Para quem se interessa pelo tema, recomendo O Último Homem a Tomar LSD: Foucault e o Fim da Revolução, de Mitchell Dean e Daniel Zamora, e A Última Lição de Michel Foucault, de Geoffroy de Lagasnerie.




