(Texto do jornalista e cinéfilo Natan Novelli Tu)
É uma pena que a indicação da primeira mulher trans para a categoria de Melhor Atriz no Oscar fique marcada pelas polêmicas de Karla Sofia Gascón. Mais do que julgar a qualidade do filme “Emília Pérez” ou o conteúdo dos tuítes da atriz, fica uma história de apagamento da comunidade trans.
A Netflix, que detém os direitos de distribuição do longa nos EUA, Canadá e Reino Unido, já retirou toda menção à Gascón das campanhas promocionais numa tentativa de salvar as outras 12 categorias para as quais “Emília Pérez” foi indicado ao Oscar. Há quem cogite que ela não deva aparecer sequer nas premiações que antecedem a maior noite do cinema; pelo menos não com o dinheiro da Netflix.
As declarações de Gascón são condenáveis. Não há o que se negar. O fato da atriz ter insistido em publicar posicionamentos atrapalhados em série também não a ajuda. Ainda assim, vale a ponderação sobre o peso que a indústria dá para uma polêmica dependendo de quem é o foco. Provavelmente a carreira da espanhola começa já no fim, ao menos em Hollywood.
Foi o que aconteceu com Nate Parker, diretor e ator de “O Nascimento de uma Nação”, filme que saiu do Festival de Sundance em janeiro de 2016 como um dos favoritos ao Oscar, que só aconteceria em fevereiro de 2017. No meio do caminho, uma acusação de estupro contra Parker de 17 anos atrás voltou à tona. Apesar dele ter sido absolvido na época, a história o levou do estrelato ao ostracismo.
O Oscar de 2017, no entanto, premiaria Casey Affleck pela performance em “Manchester à Beira-Mar”. Meses antes da premiação, o ator foi acusado por duas mulheres de assédio sexual em um set de filmagem, ato que ele assumiria dois anos depois, em 2019. O caso não o impediu de seguir sendo escalado para grandes produções, como “Oppenheimer”, de 2023.
Longe de apontar vítimas ou culpados, mas existe uma diferença essencial entre as duas histórias: Parker é negro e Affleck, branco.
Depois das polêmicas de Gascón, não é difícil imaginar que a indústria queira apagá-la e lembrar mais adiante de outra atriz como a primeira trans indicada à categoria principal de atuação. Fato é, Gascón é e sempre será a primeira trans indicada a Melhor Atriz no Oscar.
Para fazer jus ao meme, é preciso lembrar também das LGBTs trambiqueiras que empinam moto por aí. Nem tudo são flores.
