Este poema da pernambucana Ana Rebeca está no filme A Primavera, roteirizado e dirigido por Sergio Bivar. O título está concorrendo a Mostra Olhos Livres de Tiradentes.
“Eu tô sempre correndo
e nunca dá tempo de beijar o meu amor na boca
e dizer a ela “te amo”
Queria tanto dizer “te amo” ao meu filho,
Dizer que eu ando cansada,
Mas ele nem sabe que o cansaço é!
Ele vive no passado e o meu cansaço
É tão atual quanto esse dia que começa agora sem ter hora pra acabar.
Eu queria chorar, mas não dá tempo.
Eu vi no Instragram, ri, curti, mandei pra meu amor, ela nem viu.
O meu amor também anda sem tempo pra mim.
As vezes corro pra lhe ver dançar,
No fim da música ela diz sem querer que acabou o CD,
Que o pendrive travou
“Pô, foi mal, mas você demorou…”
E eu demorei!
E é correndo que eu ensino meu filho a pressa.
Mas como eu explico que em Monte Verde não adianta correr?
Que no Córrego do Jenipapo não adianta correr?
Na Muribeca também não adianta.
Não adianta correr quando a lama escorre.
De nada adianta saber nadar quando a água leva.
Saber respirar, não adianta.
Os dessaberes dessa vida só nos servem nessas horas.
E agora a cidade se organiza pra salvar a pele de quem?
A minha que não é.
Quando descanso,
Fico contando o tempo perdido e a conta não bate.
Eu estou sempre correndo
E nunca da tempo pra nada.”



