Das reuniões familiares nos meus tempos de criança tenho a lembrança da advertência dos velhos para “ninguém levar assuntos palpitantes à mesa”, em favor da harmonia e da beleza do momento. Futebol, religião e política eram os temas a serem evitados para não correr risco de parente exaltado e/ou alcoolizado salgar a refeição e queimar a fotografia. Os experientes só queriam o predomínio do afeto que a todos une sobre o rancor de poucos.

Foram regras de convivência que trouxeram a humanidade viva até aqui e esse esforço para impedir a autodestruição requereu constante renovação do desejo de convívio pacífico. O encontro sem medo da discordância levou sabedoria, prosperidade e expressão artística a gerações de vários povos, impulsionado pela perspectiva de gozo dessas conquistas. Apesar disso, um aspecto próprio dos humanos – o ressentimento – insiste em barbarizar.

Mágoas ou angústias formadas a partir de ofensas ou de atitude tida como injusta ou abusiva envenenam corações de pessoas e de nações inteiras. Até hoje, encontrar formas de debelar maus humores é desafio para líderes religiosos, pensadores e políticos. Apenas a construção da Justiça como instituição isenta, foco constante na igualdade e promoção do intercâmbio civilizado impedem o acúmulo – e a explosão – de sentimentos negativos.

Desde a década passada, especialistas estão debruçados sobre o espectro da crescente polarização nas sociedades. As razões encontradas para tais fenômenos estariam, numa avaliação genérica, nas mudanças radicais na tecnologia e na economia, representadas pelos impactos de algoritmos de redes sociais sobre usuários e das migrações de parques industriais sobre empregos. Os resultados são abandono de diálogo e confrontos evitáveis.

Como dizia o alemão Friedrich Nietzsche (1844-1900), o maior prejudicado pelo ressentimento é o ressentido. O ensinamento da vovó nas celebrações de casa, de conter paixões em nome da paz, se completa com esse apelo à inteligência: abandone a ira. Posso torcer pelo meu time sem virar hooligan, ter fé de mover montanha sem demonizar e ser convicto de ideologias sem odiar os rivais dela. Congraçar é melhor que guardar lixo emocional em si.

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