Na rua da amargura

A demissão do emprego é o terceiro maior estresse que alguém pode sofrer

A demissão do emprego é o terceiro maior estresse que alguém pode sofrer. Perder o posto de trabalho torna-se o maior dos pesares, superado apenas pela morte de um ente querido ou pelo término do relacionamento afetivo. No comecinho deste século dissequei importante estudo sobre esse estado emocional péssimo. Agora, do “Práticas de Demissão nas Maiores e Melhores Empresas” (2002), da consultoria Lens & Minarelli, desencavo alertas ao ESG.

O divórcio entre executivos e empresas revelava graves e persistentes falhas no ato de demitir e estudiosos sugeriam caminhos para minimizar seus maus efeitos. Era um momento marcado pelo impacto da tecnologia na rotina de empresas e pelo rearranjo produtivo provocado pela abertura da economia com moeda estável. Os profissionais de alto nível não se prepararam para as mudanças e desligamentos das empresas eram puxados por novo contexto.

As entrevistas com 300 demitidos revelaram empresas bem mais preparadas para contratar do que para demitir. Profissionais de notável ficha de serviços, com tempo médio de oito anos no emprego, resistiam às mudanças, aos novos comandos e às novas culturas. Depois, largados na rua da amargura, sofriam o golpe dado pela falsa sensação de segurança, pela ignorância sobre a armadilha do salário alto e pela dificuldade de ter recolocação equivalente.

A maioria dos ouvidos (62,4%) fora demitida pela primeira vez. Para o resto, poucos também tinham plano para o momento da demissão. Do total, 80% deles consideravam o desligamento injusto e seu ressentimento até poderia ser amainado se tivessem recebido algum retorno antes. O lado psicológico falava alto e tudo virava pessoal, projetando no superior hierárquico a razão do “bilhete azul” ou “chute no traseiro”. A dissonância era questão de trato.

O choque de visões de demissor e demitido tornava a frustração dominante. Três quartos dos executivos se diziam chocados, revoltados e resignados. Só 24% estavam aliviados e a maioria não tinha plano de contingência financeira ou de renda. Com a carreira atrelada à empresa, aplicavam recursos no que dava despesa, nada de alternativa de renda. Nem quem já havia sido demitido aprendeu com a experiência. O que mudou 20 anos depois?

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