Ícone do site Crania

PIB perdido na falta de patentes

Com as quintas posições globais tanto em território quanto em população, o Brasil poderia ser também a quinta maior economia, pelo menos. Por diversos fatores sociais e políticos que jogaram contra este destino natural, o país exibe hoje o décimo maior Produto Interno Bruto (PIB). Mas sempre defendi a tese de que o nosso PIB seria o primeiríssimo desde o século passado caso tivéssemos o cuidado de patentear as inovações dos nossos bravos inventores e transformá-las em empreendimentos locais. Vejamos.

Há 100 anos o químico argentino naturalizado brasileiro Ubaldo Conrado Augusto Wessel (1891-1993) patenteou aqui o definitivo papel fotográfico. Suas pesquisas iniciadas em 1908 foram aprimoradas na Escola Politécnica de São Paulo e a inovação obteve registro em 1921. Após vender o produto a fotógrafos, passou a fabricá-lo, despertando interesse de multinacionais. A americana Kodak fechou acordo com Wessel, erguendo uma indústria em Santo Amaro, tocada por ele. Em 1954, a patente passou à Kodak.

Este é o exemplo de como a criatividade própria da sociedade brasileira pode virar produtos e serviços inovadores de escala mundial, desde que se possa também aqui refinar, patentear e empreender as promissoras ideias. Numa reportagem que fiz para o Correio Braziliense em 2014 mostrei que se o avião, o rádio e o medicamento para pressão arterial, todas invenções brasileiras, tivessem seguido este roteiro básico, o país seria berço das três maiores indústrias globais: aeronáutica, telecomunicações e farmacêutica.

Para reforçar tal argumento, lembro que os principais sucessos do Brasil na balança comercial em termos proporcionais são das empresas nacionais campeãs em patentes: Embraer, Embrapa e Petrobras. A conjugação de investimento pesado e permanente na área de pesquisa e desenvolvimento (P&D), foco no mercado externo e proteção à propriedade intelectual é a fórmula de sucesso tupiniquim no mundo, com a maior agregação de valor possível. Exceções evidenciam a regra que toda a economia deveria seguir.

A Confederação Nacional da Indústria (CNI) há 13 anos lidera a Mobilização Empresarial pela Inovação (MEI), reunindo as 400 empresas mais dedicadas ao tema no país. Visando fomentar o espírito inovador, a entidade junta academia, setor produtivo e órgãos públicos para obter ganhos concretos. É o óbvio que precisa ser dito: ser criativo só não basta. Tem de inovar e transformar inovação em empreendimento. Para isso: mais educação, mais financiamento e cultura de patenteamento. Estamos longe de tudo isso.

Não por acaso, o Índice Global de Inovação (IGI) mostra o Brasil na 57ª posição entre 132 países. A nossa melhor colocação nesse levantamento anual da Organização Mundial da Propriedade Intelectual (OMPI, WIPO na sigla em inglês) foi a de 2011, com a 47ª. Enquanto não acordarmos para a inovação como fator de progresso econômico e social seguiremos sendo a eterna promessa e mostrando um retrato desfocado da nossa identidade nacional. Cadê nossa estratégia ambiciosa de desenvolvimento científico e tecnológico?

Sair da versão mobile