“Tome cuidado com o vazio de uma vida ocupada demais”. Esta pérola dita pelo filósofo grego Sócrates (470-399 a.C.) há cerca de 2,5 mil anos parece servir como luva para os dias atuais. Imersos em várias tarefas e distrações mil, sobretudo as por notificações do celular, desperdiçamos aquilo que temos de mais valioso e escasso na vida: o tempo. Sem pausa para perceber o amadurecimento de filhos e frutas, viramos porteiros da própria festa.
Contas a pagar, amores a zelar, lar por arrumar, saúde para cuidar, textos por ler… São muitas as gavetas no nosso escaninho a nos cobrar atenção e dedicação. Mas estamos sempre alegando disponibilidade insuficiente para dar conta de tudo com serenidade, colocando tudo atrás do biombo que nos acostumamos chamar de correria diária. O resultado disso acaba sendo quase sempre alta ansiedade, irritação constante e doentia angústia.
Mas não é só o descompasso com rotinas que nos deixa mal ao fim do dia. Quando nos damos conta de que não conseguimos terminar o livro, marcar conversa com o amigo de infância em necessidade, completar a montagem daquele álbum de fotos da viagem dos nossos sonhos e aprender, enfim, a tocar um instrumento musical, nos vemos impotentes demais. Para piorar tudo, quando ganhamos uma folguinha, ficamos ou entediado ou nervosos.
O que fazer então? Resgatar conexões interrompidas, investir na harmonia geral, olhar no olho, baixar a bola com tudo que não merece importância, consumir menos, relaxar na hora de relaxar, dormir direito e encontrar as razões verdadeiras por detrás da objetividade cega da agenda. Sem ter os momentos para agradecer aos Céus pela vida, agradar-se, cativar os outros e completar as incompletudes, apenas alimentaremos perigosa frustração.
Até queria fazer como o poeta Manoel de Barros e “comprar o ócio” para se dedicar apenas ao ofício que lhe gratifica mesmo. Isso, contudo, requer muito dinheiro. Da mesma forma são poucos os que têm o privilégio de programar “períodos sabáticos” para traçar capítulo único na biografia. Resta-nos não confundir produtividade com ocupação. Tal qual nos ensina a canção “Epitáfio”, dos Titãs, devemos ao fim “ter morrido de amor”.



