Tudo que é sólido desfaz no ar

Conservar tais lembranças não é perpetuar-se nela, mas estar sempre apartado dela: é preciso lembrar para não voltar a viver. É preciso viver no mito para não sucumbir e se apagar na realidade

Era final de 1989, eu tinha onze anos quando fui mandado para a secretaria por motivos que não consigo lembrar. Na Escola Americana do Recife, na mesa da funcionária expatriada, um robusto pedaço de concreto fazia as vezes de peso de papel, chamando a atenção dos passantes.

Naquela época tudo que se via na TV eram imagens da queda do muro de Berlim. Instantaneamente, como qualquer outro o faria, presumi que o que pairava à minha frente era uma relíquia contemporânea em estado bruto, um souvenir ou fragmento da história que ultrapassava a tela, após percorrer uma dezena de milhares de quilômetros e as fronteiras incontornáveis de um idioma incompreensível.

Para minha decepção, o artefato era somente o símbolo de um símbolo, um metasimbolo, não um testemunho real do épico muro. Não uma lembrança verdadeira.

Aquele concreto não havia sido arrancado pelas mãos sedentas de um homem que enfim experimentava a liberdade, cindido por décadas, ao ponto de não mais saber quem seria caso sua urbe não fosse cortada ao meio.

Dilacerados por um acordo político e condenados a aceitarem-se como espólios de uma guerra que se materializava na vergonha do muro, esses limites políticos e geográficos inutilmente buscavam se naturalizar na população berlinense desde a gélida manhã de 13 de agosto de 1961.

De forma mais ampla e abstrata, a violência retórica da guerra fria, o embate entre as duas grandes potências, havia gerado uma tensão global que custaria ainda mais a se dissipar, voltando a recrudescer em outras periferias.

Ao ponto que escalada desse conflito, munido por armas nucleares, nos feriu com a dura verdade de que é prerrogativa do homem, e não de Deus, destruir o mundo.

Pensando hoje, sobre aquele souvenir, relacionei-o ao rito da hóstia e ao Santo Sudário. Por que reencenar? Qual a importância dos ritos e relíquias? E ainda, por que levar ao altar experiências de sofrimento e injustiça? Não seria mais saudável esquecê-las, recordar apenas da glória, honrar somente as vitórias?

Se pensarmos na hóstia nos damos com esse processo antropofágico de incorporação simbólica do outro, de historização, ou mitificação desse outro. É provável que o uso da hóstia tenha tido origem no mito de Osiris, no antigo Egito. Osiris teve seu corpo cortado em vários pedaços e espalhado por todo o Egito.

Reencenar é viver num plano simbólico, numa realidade paralela, modulada pelo homem, com seu total controle, onde a experiência de aniquilação se converte numa experiência de repetição e de apropriação eterna.

Numa cena de morte, é a morte que morre, tornando-se falsa, dando destino a pulsão, aos anseios e aos medos dos homens, sem ousar extinguir suas vidas.

Ao fim do espetáculo, independente do herói ter morrido (ou não), na representação, o espectador é um sobrevivente, assim, também, o espirito do herói é absorvido por esse espectador, num processo de universalização de sua luta, onde a voz coletiva no coro grego cumpre essa função dramática.

Acredito que a transmissão de tais simbolismos conseguem capturar não somente a violência aniquilante do instante, mas nosso ímpeto de resistência. Aquele que sucumbe na tragédia ou na injustiça persistirá através da compaixão e da universalização de sua dor e luta. Conservar tais lembranças não é perpetuar-se nela, mas estar sempre apartado dela: é preciso lembrar para não voltar a viver. É preciso viver no mito para não sucumbir e se apagar na realidade.

Voltando ao muro, a minha surpresa foi seguida pela decepção. Mas a decepção não foi capaz de apagar a surpresa que a antecedeu: a queda do muro seguiu em mim. Ou melhor, o que ficou em mim foi a imaginação de que alguém (em algum lugar) teve sua liberdade restituída, e com gana arrancou um pedaço de concreto para guardá-lo como prêmio, como reparação, ou prova de que aquela injustiça tinha sido superada.

Como algo concreto pode ser simbólico, como algo grosseiro adquire sutileza, e como um fragmento pode representar uma unidade são alguns dos mistérios que nos permite (r)existir, até mesmo nas horas mais duras.

Descubra mais sobre Crania

Assine agora mesmo para continuar lendo e ter acesso ao arquivo completo.

Continue reading