O mundo está envelhecendo e precisa de mais tecnologia para reagir aos desafios da crescente longevidade e aproveitar os tesouros que são os seres humanos maduros. No mesmo pacote, jovens estão abandonando empregos para produzir menos e fruir mais. A humanidade foi até onde dava e ficou dependente das máquinas?
Aprendi nos bancos escolares que tecnologia é criação para potencializar o trabalho e o talento humanos. Assim vem ocorrendo desde que a pedra foi lascada para virar instrumento primitivo de guerra, construção e culinária, cortando carnes, produzindo sulcos em superfícies duras e furando couros.
Em curtas palavras: qualquer bem tecnológico é uma ferramenta. Presentes neste estágio presente da civilização nos deparamos com sistemas criados para decidir, conversar e até criar textos. Será que chegamos ao ponto de máquinas superarem gente, como a ficção previu? A resposta ainda é não.
O que temos é, no máximo, coisas que simulam feitos e características de pessoas. Isso porque nosso essencial continua sendo único e insubstituível. Questionar criticamente, desejar apaixonadamente, compadecer e falhar fazem de nós a maravilhosa e barraqueira família humanidade.
Por mais que a lei do menor esforço pese, o que mais chama a atenção do imperfeito homo sapiens é seu semelhante, um outro que nunca se repete. Após a irrefreável onda de artefatos inteligentes, de automatização geral e de algoritmos a sondar intimidades, ainda preferimos os animais racionais.
A hiperconectividade e a conversa compassada com utensílios redundam em jeitos modernos de nos vermos no espelho, pois continuamos buscando tanto na técnica quanto na arte, sem falar de filosofia e religião, respostas sobre nossa condição existencial e mais formas de seduzir a nós mesmos. Rumamos longe para ficar perto.
Concordo com o conceito de modernidade líquida desenvolvido por Zygmunt Bauman, no qual ele explora a fragilidade das relações em meio à abundância de tecnologia. “Estamos nos afogando em informações e famintos por sabedoria”, diz o sociólogo polonês, o que reforça a ânsia por humanidade.
Aparelhos que ouçam a batida do coração acelerar quando os olhos veem o inesperado belo da paisagem ou o esperado objeto do amor sublinham o quão tecnológico e humanos somos, com uma característica indo à outra. Se nos perdemos no digital, o essencial berra para ser colocado no centro.

NOVO PATAMAR
Entendo que os meios artificiais servem como projeções de nossas mãos e cérebros, para seremos mais rápidos, precisos, produtivos e… humanos. Quando Elon Musk, homem mais rico do mundo, fala que robôs e renda mínima serão a regra em alguns anos ele trata de novo patamar humano.
Entendo o temor do maior cientista desde Isaac Newton, Stephen Hawking de que a inteligência artificial possa substituir a humanidade. Mas gosto mais de outro alerta dele compartilhado por Musk, o de que temos de continuar buscando um lar nas estrelas para não ceder à extinção. É o diferencial para além do natural.
O astronauta solto no espaço sem o cordão umbilical da nave pode servir da metáfora para entender nossos dilemas, com ou sem tecnologia. A bela e forte imagem revela a solidão humana no cosmo com sua insignificância diante escalas astronômicas, mas também sua ousadia para dobrar limites.
Da pedra lascada à conquista da lua, das pinturas rupestres ao metaverso, somos mais humanos ao usar tecnologia. Assim a humanidade caminha, na trilha de evolução como espécie. Somos mais que mamíferos bípedes sem pelo e mais que autômatos gentis, pois temos desejo, moral e abstração.



