Jojo Wachsmann: Resumão “sem firula” do primeiro semestre de 2021

Antes de merecidas férias, nosso colunista, no melhor estilo meio-campista cerebral, mata a bola no peito, a põe no chão e passa aos leitores o melhor resumo do primeiro tempo, falando de Bolsa, dólar, política, Brasil e EUA

Por Jojo Wachsmann, sócio-fundador e CIO da Vitreo

Decidi escrever sobre o fechamento do primeiro semestre deste desafiador ano de 2021, que tem sido uma espécie de prolongamento de 2020, porque ainda todo o planeta – não só na esfera econômica – tem lidado com os desdobramentos da pandemia do coronavírus.

Tem vezes que não podemos escapar do que se impõe. Então não vou inventar: farei um Diário de Bordo mais “diretão”. Ah, mas antes de ir mais a fundo na parte factual, venho aqui avisar que os próximos dois Diários de Bordo serão escritos por ninguém mais, ninguém menos que Rodrigo “Kiki” Knudsen.

Vou tirar (necessárias) férias. Vocês ficarão em boas mãos.

O próprio Kiki brinca que já criei raízes aqui na minha cadeira da área de gestão da Vitreo, já que nem me lembro da última vez que saí pra descansar. Pois bem, Kiki. Agora a bola é toda sua. Vamos ao semestre:

O primeiro semestre de 2021 terminou positivo para o mercado brasileiro. “Positivo, mas não espetacular”, como disse o Felipe Miranda na live mensal do Carteira Universa.

A Bolsa chegou a bater novos recordes, ultrapassando os 130 mil pontos, e fechou os primeiros seis meses do ano com alta de 6,54%, enquanto as Small Caps se valorizaram 11,42%.

Ao mesmo tempo, o real se valorizou frente ao dólar, que rompeu a barreira abaixo dos R$ 5 pela primeira vez desde 10/06/2020, e ao euro. O primeiro teve queda de 3,74% no ano, e o segundo, de 7,06%, de acordo com a Economatica.

Com esse cenário, ficou um pouco difícil encontrar “jogo”. Com a Bolsa subindo um pouco mais de 6% e o dólar caindo próximo de 4%, não foi fácil achar espaço para conseguir boas chances de ganho na renda variável. E o mesmo ocorreu com a Renda Fixa, com a curva de juros sempre abrindo, com FIIs (ainda mais agora com a perspectiva de taxação conforme proposta da reforma tributária) e, claro, com cripto, que sofreu uma grande queda, especialmente no segundo trimestre.

Mas esse movimento todo de mercado não aconteceu em linha reta, claro. Brinquei que, lá para o começo de março, a gente poderia ter “fechado a casinha” e tirado férias, como farei agora. O dólar chegou a 5,80, Bitcoin estava quase no seu recorde histórico (64 mil), ações de cannabis idem… Mas, infelizmente, o mercado não funciona assim. Então temos que lidar com todos os cenários.

Vamos seguir com a análise.

Liderando a recuperação mundial e um dos destaques na campanha de vacinação, os Estados Unidos também apresentaram bons resultados. O país, que cada vez mais se aproxima de um cenário de ‘vida normal’, viu o S&P 500 subir 14,41% no ano, e o Nasdaq 100, 12,54%, mesmo com o movimento de rotação setorial entre março e maio. Quem também desempenhou bem foi o MSCI World, com alta de 13,49% em 2021.

(Ah, importante: as informações sobre dólar, euro, MSCI World, S&P 500, Nasdaq 100, Ibovespa e Small Caps que estou disponibilizando neste Diário de Bordo foram retiradas da Economatica e da Bloomberg, em consulta realizada em 1 de julho.)

Ainda no cenário internacional, o principal tópico de discussão nos mercados foi a inflação nos Estados Unidos. O Fed vem mantendo inalterada a taxa de juros no país e, paulatinamente, afirmando que este é um movimento transitório.

Com a projeção de juros de 2% ao ano no longo prazo, o Banco Central americano sinalizou que os juros podem voltar a subir a partir de 2023. Com Joe Biden na presidência, o país ainda aprovou diversos estímulos fiscais e desfez algumas decisões tomadas por Donald Trump, como deixar o Acordo de Paris.

No Brasil, a principal preocupação vem sendo a inflação. A prévia do IPCA divulgada em 25 de junho aponta uma inflação de 4,13% no ano e 8,13% em 12 meses. O Copom já indicou que vai fazer o necessário para manter o indicador dentro da meta, e vem elevando a Selic, que começou o ano em 2% e já está em 4,25%, com previsão de seguir subindo.

Duas das promessas de campanha de Jair Bolsonaro, que segue convivendo com manifestações pró e contra cada vez mais raivosas, as reformas administrativa e tributária, vêm andando a passos lentos no Congresso. Uma das mudanças sugeridas foi a alteração da tributação dos investimentos, o que chacoalhou o mercado nos últimos dias do semestre.

Ainda na política, o STF fechou questão sobre a suspeição do ex-ministro da Justiça Sergio Moro nos julgamentos envolvendo Lula, que voltou a ficar elegível. Com a decisão, os casos contra o ex-presidente voltaram à estaca zero, e ele surge como o principal opositor a Bolsonaro em 2022. Tudo isso dentro de um contexto em que os números de mortes causadas pelo coronavírus pioraram de forma significativa no Brasil. Ultrapassamos a marca trágica de 500 mil mortes. E, por mais que estejamos vacinando a população, ainda temos um grande caminho pela frente para podermos fazer como os ingleses na Eurocopa, que estão lotando estádios sem precisar usar máscara (que inveja!).

Também foi implementada a CPI da Pandemia. Dentre diversas declarações, a principal suspeita até o momento é a de irregularidades no contrato de compra da vacina indiana Covaxin. Funcionários do alto escalão do governo teriam superfaturado e até pedido propina para negociar vacinas. Isso tem potencial para causar volatilidade nos ativos de risco. A ver.

Por fim, o semestre terminou com o aumento da possibilidade de uma crise hídrica. Vivendo o pior regime de chuvas em 90 anos, o país pode ter que ativar as termelétricas de emergência, e a preocupação é a possibilidade de um blackout ou da necessidade do racionamento.

Ainda houve bastante tensão na América Latina. A Colômbia viveu diversos confrontos entre a população e a polícia; e a Argentina viu os números de casos de Covid no país aumentarem. Assim, a Copa América foi transferida para o Brasil. Além disso, com maioria de esquerda nos órgãos legislativos, o Chile aprovou a votação a favor de uma nova Constituição. Já na China a principal incerteza é relativa a como o governo vai regular os mercados. Inclusive, uma das polêmicas, que acabou em janeiro, foi o paradeiro de Jack Ma. O fundador da Alibaba passou três meses fora dos holofotes após críticas ao governo chinês. A gente acompanhou isso de perto, por conta das importantes posições que o fundo Tech Asia tem no continente.

Por fim, vou resumir o primeiro semestre com uma analogia que li no Telegram do Felipe. Esse primeiro semestre foi “aquele primeiro tempo de um jogo difícil, com gramado pesado e o adversário veio com aquela retranca”. Aquele jogo em que os jogadores precisam estar muito concentrados para – com o perdão da expressão – não fazerem cagada.

E, nesse contexto, é possível dizer que os fundos e produtos mais importantes da Vitreo – como o Carteira Universa (fechou o semestre com 4,41% ou 350% do CDI, bruto de impostos) e o FoF Melhores Fundos (fechou o semestre com 4,78% ou 377% do CDI, também bruto de impostos) – conseguiram marcar um golzinho chorado, que deu uma ótima chance para conseguirmos os três pontos no final do jogo. Gol de placa mesmo ficou com o Oportunidades de uma Vida, que fechou o semestre com 22,72% bruto de impostos, bem à frente do Ibovespa, que terminou com 6,54%.

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