Por Rafael Cló, CEO da Azos
Um marco dos tempos em que vivemos é a luta pela saúde mental – certamente todo mundo conhece alguém que sofre ou já sofreu com depressão e ansiedade. Casos extremos, como suicídios, assustam: segundo dados globais da Organização Mundial de Saúde (OMS), a cada 40 segundos uma pessoa coloca fim à própria vida.
Um dos grupos que tendem a sofrer mais pelas fragilidades relacionadas à saúde mental são os órfãos. A psiquiatra britânica Dora Black, pioneira em estudos sobre infância e adolescência, concluiu que 40% dos adultos que ficaram órfãos nos seus anos formativos desenvolveram algum transtorno psicológico. Há também maior probabilidade de essas pessoas desenvolverem problemas de aprendizagem e de relacionamento.
Mas essa tendência negativa não significa que órfãos estão fadados à infelicidade. Como quase toda história, essa tem um outro lado que deixa uma ponta de esperança.
No livro “Outliers”, o escritor Malcolm Gladwell escreve que um terço dos presidentes norte-americanos se tornaram órfãos de pelo menos um dos pais na primeira infância, incluindo George Washington, Bill Clinton e Barack Obama. A historiadora Lucille Iremonger mapeou que 67% dos primeiros-ministros britânicos nascidos entre o início do século 19 e o fim da segunda guerra perderam um dos pais antes de completar 16 anos de idade. O psicólogo americano Marvin Eisenstadt mergulhou nas enciclopédias da época e selecionou aleatoriamente 573 indivíduos extraordinários para entender o que havia em comum nos anos formativos dessas pessoas. O resultado: 25% tinham perdido um dos pais antes dos 10 anos, 34% antes dos 15 e 45% antes dos 20.
Assim, a ideia que se impõe é a de que, quando inseridos em um ambiente que educa, direciona e apoia, essas crianças terão mais propensão a se desenvolver, superando eventuais traumas decorrentes da perda dos pais. Visão de mundo, senso de propósito, resiliência emocional, entre outras condutas, contribuem de forma determinante para a construção de trajetórias audaciosas.
O Brasil tem mais de 3,7 milhões de órfãos de pais e mães e é o nono na lista dos países em desenvolvimento com maior número de órfãos no mundo. O Brasil tem mais de 11 milhões de mães solo, que são responsáveis por criarem os filhos e também são as principais provedoras da família. O suporte assistencial e financeiro pode ajudar essas crianças na sua formação. O cenário é otimista: de acordo com reportagem recente do Jornal Nacional, entre 2019 e 2021 o número de brasileiros que procuraram adotar uma criança cresceu 13%.
Para além da adoção, o desafio da saúde mental pede que o antigo lema de Platão esteja presente no dia a dia: “Seja gentil, pois aqueles com qual interagimos também estão enfrentando uma batalha dura.”
