Lai Santiago é educadora financeira e cientista comportamental da Open Co. Formada em Enfermagem pela Universidade de Brasília e com MBA em Economia Comportamental pela ESPM, a especialista em conteúdo de finanças chega a unir o conhecimento das duas áreas para atender seus clientes.
Natural de Riachão de Jacuípe, na Bahia, Lai foi uma criança travessa, mas hoje cultiva uma relação forte e de cuidado com a família. O gosto por dias chuvosos tem um motivo especial, bem como a companhia dos animais de estimação. Confira a entrevista completa.
Qual a sua melhor memória de infância?
Tive uma infância bastante agitada. Meu pai trabalhava como bancário e a gente se mudava o tempo inteiro. Algo que realmente me toca quando lembro é da volta para casa. Apesar da gente ficar se mudando, ter várias casas, sempre considerei Riachão do Jacuípe a minha casa. Quando voltávamos e íamos para casa da minha vó, era o ponto alto do meu mês, do meu ano. Uma vez, meus primos e eu estávamos com um brinquedo que era tipo um lança míssil. Então, tive uma ideia: “e se a gente mirasse nas pessoas na rua?” [risos]. Todo mundo entrou na onda. Usamos biscoitos que a nossa vó comprava aos montes e nós odiávamos. Quando ela desconfiou, começou a exigir que a gente comesse na frente dela. Esse é o tom da minha infância. Ela foi vivida como uma infância deve ser vivida: com palhaçada e brincadeiras, fazendo o que não se deve fazer.
Um livro ou um filme que mudou sua vida.
Não consigo dizer um filme ou livro que virou de cabeça para baixo a minha vida, que virou o jogo. Agora, um filme que assisti exaustivamente foi Rei Leão, o desenho. Eu repetia todas as falas. Quanto aos livros, eu li Memórias Póstumas de Brás Cubas e Vidas Secas mais de dez vezes cada. Tanto que o nome da minha cachorra é Baleia, assim como a personagem de Vidas Secas. Não são obras que têm uma grande lição ou algo do tipo, mas me cativaram bastante. Talvez isso diga um pouco sobre a minha teimosia, de ler e ver uma coisa tantas vezes ao ponto de entender cada uma das camadas daquela obra e tentar aprender os detalhes que estão ocultos, com essa mentalidade de detetive.
Qual é o seu lugar preferido?
Riachão do Jacuípe, minha cidade natal, na Bahia. Pelo fato de eu me mudar muito ao longo da vida, principalmente na infância e adolescência, tinha muita carência de ter uma casa. E Riachão sempre foi uma casa para mim. Toda vez que voltava para lá, era um momento que recarregava a minha bateria. Eu me conectava com minhas raízes, com a minha baianidade. É uma cidade super simples, pequenininha, muito pobre, inclusive. Mas que me acolhe sempre. As pessoas de lá são maravilhosas. Cada vez que volto lá, estou diferente e a cidade está diferente. É um bairro que surgiu, uma rua que asfaltou. Acho massa acompanhar esse processo.
Descreva um dia perfeito.
Um dia sem celular. Não acessaria nenhuma tela. Estaria chovendo, pois amo chuva. Para o nordestino, a chuva tem outro sentido. É sinônimo de riqueza, dinheiro, vida, prosperidade. Ao lado do meu companheiro e como meus bichinhos – tenho um zoológico em casa, são quatro gatos. E passaria o dia conversando. Um dia perfeito para mim não precisa ter grandes feitos, nem estar em lugares deslumbrantes.
Para você, o que é sucesso?
É conseguir impactar positivamente não só a minha vida mas também a das pessoas que estão em minha volta. Fiquei muito realizada quando consegui amparar minha família financeiramente e dar a eles mais qualidade de vida. Foi uma métrica de sucesso para mim. Também me realizo toda vez que atendo um cliente e percebo a evolução dessa pessoa ao longo do percurso, saindo de um endividamento e chegando ao patamar de investidor. Sucesso só é válido quando compartilhado e construído de maneira coletiva. É muito triste ser bem sucedido sozinho. Acho que a gente precisa fazer com que mais pessoas se sintam bem sucedidas em suas empreitadas.
Qual foi a sua maior superação?
Teve um ponto importante que tive que fazer uma “escolha de Sofia”. Meus pais estavam passando por uma situação muito difícil de adoecimento mental. Eu sou filha única, responsável pelos meus pais, principalmente por prover para eles. Quando a gente estava passando por esse turbilhão, senti uma grande pressão de ter que voltar para minha cidade e cuidar deles. Conversei com minha família e pedi para segurarem a barra, porque eu estava começando na consultoria financeira, e as coisas iam começar a virar – aumentar a renda, ter mais estabilidade. Escolhi ficar em Brasília. Foi muito difícil. Durante um tempo achei que tinha sido uma decisão injusta ou egoísta. Da minha parte, foi uma grande superação. Consegui me distanciar de todo o emaranhado emocional e ter um olhar mais racional. Talvez hoje eu não conseguiria repetir isso. Mas, olhando para trás, vejo que foi a melhor decisão.
Alguém que te inspira.
Painho. Ele me inspira muito. Quando aconteceu esse problema de saúde com meus pais, ele passava por um processo depressivo muito intenso, e minha mãe teve um problema neurológico que desembocou em uma questão psiquiátrica muito difícil. Mesmo assim, meu pai conseguiu extrair forças não sei de onde para cuidar de mainha. Não tenho palavras para descrever. Admiro a paciência que ele tem, o modo como é firme no seu posicionamento, de não se preocupar com o que outras pessoas vão pensar ou criticar e fazer o que deve ser feito.
Como se vê daqui a 10 anos?
Espero que eu esteja mais próxima da minha independência financeira, da minha aposentadoria. Fazendo a mesma coisa que faço hoje, atendendo os meus clientes, comunicando a palavra da educação financeira. Espero que tenha impactado mais pessoas com meu trabalho, e que a minha família esteja com uma condição financeira mais estável.
Se pudesse resolver um problema do mundo, qual seria?
A desigualdade. Não consigo assimilar que existem pessoas que são bilionárias e pessoas que estão passando fome. Que o problema da fome seria resolvido se a gente tivesse uma política de distribuição de renda bem estruturado. Os problemas climáticos, inclusive, que são reflexo da concentração de renda. Então, acredito que se houvesse um mundo menos desigual, certamente a gente conseguiria encarar outros problemas de uma maneira mais efetiva. É muito doloroso ver como é difícil para uma camada da população ter o mínimo, enquanto existem pessoas que poderiam fazer parte da solução desse problema – pessoas, empresas, instituições, organizações – e isso não acontece.



