A decisão da Anvisa, em dezembro de 2019, de autorizar as farmacêuticas a registrar produtos derivados de cannabis medicinal e de permitir a venda destes remédios nas farmácias, sob receita controlada, foi a certeza, para o empresário brasileiro radicado no Canadá José Bacellar, de que escolhera um mercado novo, promissor e com potencial enorme para tratar milhares de pacientes e ao mesmo tempo movimentar bilhões de recursos nas próximas décadas.
Em 2018, um ano antes da regulamentação da Anvisa, Bacellar fundou a Verdemed. Com sede em Toronto, a farmacêutica nasceu com o foco de desenvolver e distribuir, na América Latina, medicamentos à base de canabidiol, extraídos da planta cannabis sativa, a mesma usada para produzir a cânhamo ou maconha. Na ocasião, a expectativa de Bacellar era de que a região, progressivamente, seguiria os passos do Canadá, da Europa e dos Estados Unidos, que regulamentaram nos últimos anos o uso de produtos à base de cannabis para fins medicinais.
A normativa da Anvisa, conhecida como RDC 327/2019, em linha com os avanços que ocorrem em paralelo nos vizinhos latino-americanos, foi oportuna para a Verdemed. A nova regra eliminou a insegurança jurídica que cercava a questão. A farmacêutica, que já tinha licença da agência sanitária para a importação de medicamentos controlados, passará a comercializar um de seus produtos derivados de cannabis nas farmácias do país a partir de julho.
Desenvolvido no Canadá, a partir de CBD isolado e de extratos vegetais full spectrum, o produto tem o selo de aprovação de agências reguladoras como o FDA (Estados Unidos) e a EMA (Europa) e atende, em sua maioria, pacientes que sofrem com dores crônicas, epilepsia e distúrbios de ansiedade e sono. Com o aval para comercializar nas farmácias, Bacellar espera reduzir os custos cobrados por remédios canábicos que hoje são importados tanto pelo setor público quanto pelo paciente que obtém uma prescrição médica.
“Aprovamos dois produtos e temos uma licença de operação por cinco anos. Estamos na fase de escalar a operação no Brasil. Além do remédio que chegará nas farmácias e do canabidiol que tem uma fórmula mista de CBD e THC e pode ser importado, temos mais 10 produtos testados, com diferentes concentrações de canabidiol, que serão submetidos à aprovação da Anvisa ainda em 2022”, conta Bacellar.
O executivo enxerga o pioneirismo da empresa como uma vantagem competitiva em um mercado que ainda se abre à medida em que avançam as regulamentações, mas que ao mesmo tempo já demonstra um evidente potencial de crescimento. Um levantamento da instituição de pesquisa The New Frontier Data apontou que somente o setor de cannabis medicinal no Brasil pode movimentar R$ 4,7 bilhões em 2023.
“Neste momento, é um diferencial já ser farmacêutica com licença para importação e distribuição e que conquistou a autorização para comercializar os produtos nas farmácias brasileiras. Portanto, uma empresa que não seja farmacêutica, ainda que bilionária, irá demorar muito mais tempo para entrar neste mercado”, diz Bacellar. A Verdemed pretende obter outra licença da Anvisa para importar a matéria-prima e usá-la no processo de produção dos medicamentos no Brasil a partir de 2023.
A fabricação no Brasil, observa Bacellar, reduziria ainda mais custos operacionais e seria determinante para baratear os preços. O executivo projeta registrar um faturamento de US$ 50 milhões em cinco anos em toda a América Latina. Para garantir a escalada da operação no país, a empresa quer captar uma nova rodada de investimentos de US$ 5 milhões, até meados do ano. Desde a fundação, a Verdemed já levantou mais de US$ 9 milhões com fundos de investimento e Family offices.
“Como um player global, queremos firmar mais e mais parcerias com americanos, europeus e latino-americanos. Temos reuniões marcadas com potenciais fornecedores de todos os lugares do mundo. Apostamos que a cannabis medicinal é uma realidade que veio para ficar. Cada vez mais governos da região devem promover avanços regulatórios neste sentido”, prevê Bacellar.