O trabalho realiza sonhos ou é fardo que temos de carregar para viver? Em plena terceira década de novo milênio, esses dois conceitos ainda brigam feio entre si. Tive boa amostra disso semanas atrás com milhares de reações – sejam de aplauso ou de crítica – despertadas por postagem no LinkedIn sobre um trabalhador de carteira assinada perto de completar 104 anos.
A notícia sobre o funcionário de supermercado em Pouso Alegre (MG) que se recusa a “ficar parado” foi postada na rede social dedicada a carreiras pelo consultor Mauro Wainstock. Empregado fichado mais idoso do Brasil, José Bernardo da Silva acorda às 6h e chega antes de todos ao trabalho. “Vô Bernardo”, como é conhecido na cidade, esbanja orgulho e disposição, mas precisa do salário para arcar com gastos não cobertos pela aposentadoria.
Nos comentários deixados no perfil de Wainstock estão votos sinceros de admiração com a longevidade laboral do personagem. Ressaltam o papel de inspiração e exemplo dele, sobretudo para os mais jovens. Mas as interações também registram a opinião dos que enxergam nessa história a prova cabal do desamparo à velhice no Brasil, marcado pela desigualdade social profunda. Ambos os posicionamentos são defensáveis.
Mas por que cidadãos centenários na labuta nos induz a sentimentos tão díspares e viscerais? Porque eles espelham o maior drama existencial das pessoas hoje, que é encontrar o propósito no que fazem e a satisfação plena no trabalho. E como fazer isso se faltam empregos e qualificação, se rendimentos encolhem, preconceitos abundam e se vivemos mais?
Trabalhamos para viver ou vivemos para trabalhar? O real limite está na condição física ou no desejo de continuar? A Inteligência artificial e a automação vão desempregar milhões nos próximos anos? Será preciso criar a renda básica de cidadania universal para garantir a convivência do direito de sobreviver com o de realização pessoal e profissional?
São muitas questões evocadas pela figura augusta do Vô Bernardo. Tal qual ele, Walter Orthmann, 100 anos recém-completos, só pensa no tempo presente. Ele figura no Guinness Book, famoso livro dos recordes, como empregado há 84 anos numa mesma empresa, a têxtil RenauxView, de Brusque (SC). Para ele, é o trabalho que o mantém vivo, por lhe dar razão para seguir adiante. Não há exploração. Ao contrário, há plena recompensa.
“Viver é perigoso”, lembra Guimarães Rosa. Mas viver também é, cada vez mais, algo urgente. Entre um ensinamento e outro emerge a mais excruciante das dúvidas: o que fazer desta maravilhosa e ínfima vida?
