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Ilana Bobrow: Não é fácil ser mulher no mercado financeiro

A boa notícia é que as coisas já mudaram muito: aliadas e aliados estão nos dando força para que ocupemos Wall Street, a Faria Lima e qualquer ambiente predominantemente masculino

A boa notícia é que as coisas já mudaram muito: aliadas e aliados estão nos dando força para que ocupemos Wall Street, a Faria Lima e qualquer ambiente predominantemente masculino

Por Ilana Bobrow, sócia fundadora e diretora de relacionamento da Vitreo

Recentemente, me perguntaram o que me levou ao mercado financeiro. Antes de entrar nele, eu sabia pouco sobre aquele universo, ao contrário de muitos estagiários que entrevistei nos últimos anos – já chegam entendendo e gostando. Meus conhecimentos se limitavam praticamente ao que eu havia absorvido nas aulas de Derivativos e Renda Fixa na faculdade.

O que, então, despertou meu interesse? O desafio. Na época, era legal falar que você trabalhava em um daqueles bancos de investimento cujos cartazes adornavam o mural de estágios da FEA. Era difícil entrar num deles. Era admirável estar num deles. Talvez seja o “criei uma startup” de hoje em dia.

E tinha um plus: o fato de eu ser mulher. Mulheres eram quase uma exceção na Economia. Na minha classe, éramos nove e 81 homens. Imagina ser uma mulher em um desses bancos internacionais? Uau. Assim eu pensava. Sempre gostei de ser diferente. De me destacar. Não falo disso com orgulho, pois há um grande preço nesse desejo.

Minha primeira entrevista foi um balde de água fria. Perguntas estranhas e demandas exageradas – para não dizer abusivas. Me pediram para plantar bananeira. Sério. Queriam que eu plantasse de fato? Não. Queriam ver como eu agia sob pressão.

Eram dois entrevistadores homens. E os outros quatro candidatos também. Por várias vezes, engoli seco e apertei minhas mãos, para não chorar. Não plantei a bananeira e perguntei: “A entrevista é pra vaga em circo?”. Tão logo terminou, fui para o banheiro chorar.

Quando eu estava saindo do prédio, me puxaram e ofereceram a vaga. Eu queria tanto uma chance de trabalhar lá, que nem passou pela minha cabeça negar. Foi um mix de sentimentos.

E assim foram quase quinze anos de carreira no mercado. Não foram poucas as vezes que engoli seco ou que apertei minhas mãos. Com o tempo, as idas ao banheiro pra chorar diminuíram. Segundo minha terapeuta, fui criando “pele de cobra”.

Não é fácil ser mulher no mercado financeiro. Por causa do assédio que vivemos, das fofocas (Que mulher cresceu profissionalmente sem ter relacionamento com o chefe? Muitas! Pois é, não é o que dizem os invejosos), da diferença, da não promoção na “idade fértil”, e, principalmente, do fato de que isso tudo é, na maioria das vezes, velado, mora nas entrelinhas.

Ninguém te fala abertamente que seu colega foi promovido por ser homem. Ou que sua postura não condiz com o que se espera de uma mulher, à luz dos estereótipos. Se ele pede coaching, legal, é esse o caminho. Se ela é vista em uma sala, restaurante ou bar com o coach do sexo masculino, o que pensam? Se ele se veste bem, cuida da aparência. Se ela, quer chamar atenção. Se ele se atenta aos detalhes, é cuidadoso. Se ela, é chata. Se ele eleva a voz, tem autoridade. Se ela, está de TPM.

A lista vai longe. E os absurdos não se restringem ao mercado financeiro. Mas vejo uma luz no fim do túnel. O mundo virou ESG. E, apesar de eu achar que muita gente “segue” as boas práticas não pela essência, mas para estar sob o holofote, sinalizando virtude e de olho no marketing, acredito que as coisas estejam evoluindo e vão evoluir muito mais. Com relação às mulheres, aos gays, negros, a outras minorias, todas tão importantes para a diversidade e, pasme, para o resultado das empresas. Quem ainda não viu estatísticas nesse sentido?

A partir de agora, vão pensar duas vezes antes de promover o homem em detrimento da profissional grávida. Antes de interromper uma mulher. Antes de dizer que a postura da colega foi inadequada. Claro que tudo isso vai continuar acontecendo, mas creio que numa escala menor.

Só de nos atentarmos mais ao tema, já é uma grande chance de desmontar vieses e comportamentos que tanto prejudicam as mulheres, em diversos mercados, especialmente nos predominantemente masculinos.

Se um dia eu quis ser a diferente, hoje quero ter mais “iguais” por perto. Quero mais mulheres sendo protagonistas, sem serem alvos de julgamentos e preconceitos. Temos uma série de skills que podem contribuir para o business e precisamos aproveitar o vento soprando a favor para mostrar ainda mais o nosso valor.

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