Ilana Bobrow: “O que fazemos onde estamos” é mais importante do que “onde estamos”

Por muito tempo vi, digamos, sem tanta admiração, filho que trabalha na empresa da família. Para mim, tratava-se de um passarinho meio com a asa quebrada, incapaz ou “não a fim” de alçar voos próprios

Por Ilana Bobrow, sócia fundadora e diretora de relacionamento da Vitreo

Em 26 de abril de 1988, durante o trabalho de parto da minha mãe, a Puket teve seu primeiro pedido faturado. O sonho da fábrica do meu pai ganhava contornos de realidade no mesmo momento em que eu vinha ao mundo. Ele e meu tio criaram uma linda história, cheia de cores e imaginação.

Cresci às voltas com as meias da Puket. Indo à fábrica. E, depois, às lojas. Meu pai, no entanto, me incentivou desde cedo a traçar meu próprio caminho, independentemente daquela atmosfera.

Apesar do meu grande interesse pelo varejo, fui descortinar outros horizontes, os meus horizontes. Me dediquei, conquistei, busquei reconhecimento por mérito próprio, e não por ser “a filha” (em que pese o privilégio de eu ter tido acesso a uma excelente educação, oportunidade que desejo a todos).

Mas e se, em vez de debandar para outro ramo, eu escolhesse ajudar a tocar a empresa da família? Isso me faria deitar em berço esplêndido e me acomodar? Ou, pelo contrário: seria eu uma profissional ainda mais empenhada, em razão da responsabilidade que é dar sequência a uma companhia familiar bem-sucedida?

Não importam o ramo, o negócio, se é ou não da família, se está ou não dando certo, se a grana é boa ou deixa a desejar. O mais relevante é o impacto que queremos causar com nosso trabalho – na gente, nos outros e na sociedade. “O que fazemos onde estamos” é mais importante do que “onde estamos”.

Aprendi isso com meu marido. E essa visão me ajudou a quebrar um preconceito: por muito tempo vi, digamos, sem tanta admiração, filho que trabalha na empresa da família. Para mim, tratava-se de um passarinho meio com a asa quebrada, incapaz ou “não a fim” de alçar voos próprios. Uma ideia equivocada e, de novo, preconceituosa. Talvez tenha sido essa visão o fator determinante para eu não me aventurar pelo universo das meias.

Nas últimas semanas, me reconectei com as histórias de dois amigos. Filhos de empresários, ambos sempre tiveram ótima condição financeira. Poderiam ter escolhido o que quisessem; optado por uma vida tranquila, sem grandes ambições (e consequentemente tropeços), com muito lazer e mordomia.

Escolheram, porém, ser protagonistas em suas carreiras. Como admiro isso. Ver as pessoas lutando pra criar a sua marca no mundo, sair da zona de conforto, da aba de alguém. Um deles seguiu “carreira solo” e o outro optou por ficar no business da família. Ficar, não; alavancar um negócio que já era bem estabelecido, fazendo-o crescer muito mais. Quantas pessoas não assumem a empresa dos pais ou parentes e a vão tocando “de lado”? Ele fez diferente. Não importa onde estava, mas, sim, o que fazia e como fazia. Brilhou.


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