Ilana Bobrow: Tudo sobre controle

Aprendi que o imponderável é uma força da natureza e que é impossível controlar tudo. Mas sou teimosa…

Por Ilana Bobrow, sócia fundadora e diretora de relacionamento da Vitreo

Sempre tive necessidade de controlar as coisas. Meus sentimentos, minha agenda, projetos, resultados, a carreira. Meu pai brinca que minha vida tem um business plan. Planejamento, objetivos bem definidos, prazos a cumprir, rotina, disciplina – construí minha personalidade sobre esses pilares.

Quando virei mãe, a obsessão por estar no controle me fez mal. A cada choro, virose, noite mal dormida da minha filha, eu via que ter tudo sob controle é uma utopia. Se era difícil prever o dia seguinte, imagine a semana ou o mês. Ainda assim, eu continuava querendo estar no comando dos eventos envolvendo aquela bebê. Tenho certeza de que tal impotência foi a origem da minha depressão pós-parto.

Nada disso colocou freio nos meus planos de ter um segundo filho dali a pouco. E assim foi. Achei que, mãe de segunda viagem, teria mais controle, compreenderia melhor a realidade. Doce ilusão. Aprendi que cada filho é único, que nem tudo se repete e que experiências passadas muitas vezes não servem como manuais para experiências futuras.

Tempos depois, voltei ao mercado e me senti melhor. No trabalho, eu conseguia em alguma medida fazer o que no exercício exclusivo da maternidade era impossível: planejar e tomar as rédeas.

Aí veio a pandemia. Com ela, a ausência de controle imperou no mundo. Como lidar com tantas incertezas, tristezas, mudanças, dificuldades? Do trabalho remoto ao medo do vírus, da falta de convívio social às escolas fechadas, dos hospitais lotados à crise econômica? É curioso: quanto mais descontrolada a vida, mais controle dela o controlador quer ter.

No meu microcosmo, eu juntava os problemas enfrentados por todos, pela sociedade, aos meus, individuais, para no final formar uma grande interrogação sobre a minha cabeça, sintetizando a pergunta de um milhão de dólares destes tempos: “Como será o amanhã?”. Nesse período, tive meu terceiro filho.

A pandemia me ensinou a viver um dia após o outro. Aprendi que, salvo casos de gravidade máxima, a gente se adapta, se vira. Que o imponderável é uma força da natureza e que é impossível controlar tudo. Toda vez que reforço esse aprendizado, que trabalho meu autoconhecimento nesse sentido, tiro alguns quilos dos meus ombros.

Vivemos melhor quando sabemos lidar com o inesperado, com o imprevisto. A reunião desmarcada em cima da hora, o evento convocado às pressas, a tarefa que surge do nada, a demissão sem feedback prévio, o contrato cancelado de repente, a discussão improvável com um parceiro de time… Me diga: quem espera essas coisas? Em que business plan elas estão descritas? Onde estava escrito que, apesar de todos os cuidados, estaríamos com casos de Covid aqui em casa?! (OBS: Escrevo este texto na metade da nossa rígida quarentena familiar.)

Diante da impossibilidade de controlar a vida, creio que o melhor a fazer se resume a três pontos: 1) Não deixar para amanhã o que se pode fazer hoje; 2) Viver os problemas apenas quando aparecem (ainda estou aprendendo); 3) Canalizar as forças para o processo de se adaptar ao novo cenário. Certa vez ouvi que precisamos ser como o capim, que flui conforme o vento. Quanto mais rápido aceitamos a mudança de rota, mais fácil é seguir em frente.

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