Ilana Bobrow: Desligar é preciso

Sabe aquela lenda de que as ideias aparecem no banho ou durante a corrida, por exemplo? Não é lenda

Por Ilana Bobrow, sócia fundadora e diretora de relacionamento da Vitreo

Todo dia ela faz tudo sempre igual.  

Essa sou eu. De segunda a sexta, fim de semana, feriado, férias. A ordem pode até mudar um pouco, mas todos os dias têm amamentação, o café com as crianças, o esporte, os e-mails, ligações em áudio e/ou em vídeo, o planejamento…  

Desligar completamente e alterar a rotina não é comigo. Acho que nasci “com cabeça de dono”, ligada no 220. Não estou me gabando, não; só registrando uma característica. E, sim, ela traz ônus, além de bônus.  

Meu pai e meu marido foram grandes empresários do mundo têxtil (E concorrentes, motivo pelo qual certa vez um grande gestor brasileiro disse que eu e Guga somos Romeu e Julieta do mundo moderno. Rs.). Cresci vendo meu pai trabalhar também à noite e aos fins de semana. Encontrei algo parecido quando comecei a me relacionar com o Guga.  

Não foram poucos os sábados e domingos que eu o acompanhei. Em feiras, lojas, shoppings, fábricas. Peguei gosto pela coisa. Logo que nos casamos, domingo à tarde era sagrado. Ele, no escritório; eu, nos meus calls mais “estratégicos” com o Patrick, fundador da Vitreo.  

Sempre tive enorme prazer em limpar minha caixa de e-mails. Em olhar a agenda dos dias seguintes. Em deixar tudo organizado para não ter pendências pelo caminho. Sério, isso me traz um alívio que nem sei descrever.  

A “natureza” de não me desligar se intensificou quando virei mãe. Afinal, com a maternidade, precisamos dar conta de mil novas tarefas. De modo que aumenta não só o trabalho, mas a sensação de que sempre há algo pendente, independentemente de sua eficiência. Sim, isso gera um certo incômodo.  

É meio paradoxal. Por um lado, odeio ter de ficar no celular em momentos de “lazer”. Por outro, é mais forte do que eu: não sou capaz de relaxar diante de um e-mail importante não respondido e de uma ligação não atendida. Para evitar a tensão, em geral respondo e atendo na hora ou “asap”. É como se a minha meta de vida fosse zerar tudo, condição para a minha paz.  

Saí de férias na semana passada e decidi que iria me desligar de verdade. Desde setembro de 2019, eu não desligava, não passava um dia sem abrir o computador, o e-mail. Conversei com meus sócios e meu time – expliquei que precisava desse momento. Todos entenderam. 

Um dia ou outro, a bem da verdade, rolaram alguns calls, reuniões e limpeza de e-mails e de mensagens no WhatsApp. Mas, na maior parte das férias, consegui ficar sem pensar em “qual comitê deve estar acontecendo agora?!”, sem olhar o celular. Vi o tempo passar “apenas” admirando a paisagem, os cavalos, pulando na cama elástica com as crianças, aprendendo a jogar tênis. E foi muito bom! 

Tem um efeito colateral muito interessante aí. Sabe aquela lenda de que as ideias aparecem no banho ou durante a corrida, por exemplo? Não é lenda. Quando a gente se afasta do turbilhão, consegue olhar a “big picture”. Consegue avaliar o cenário sob outra ótica, ter novas ideias, abrir a cabeça. Precisamos de um equilíbrio entre horas analisando dados/leituras, horas em reuniões/conversas, horas planejando e horas simplesmente com a cabeça vazia. As sinapses agradecem.  

Se eu descansei? Não exatamente… Três filhos, né? Teve laringite, febre, queda feia, terror noturno e muita amamentação. Mas foi bom demais quebrar a lógica do “todo dia ela faz tudo sempre igual”.  

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