Ricardo Arcon: O quê? Você não tem um propósito?!?

Encontre Seu Propósito é o novo Enlarge Your Penis. Bobeou, surge um coach irrelevante na sua tela, ensinando por milhares ou centenas de reais a construir “uma trajetória plena e de sucesso, com impacto social”

Por Ricardo Arcon

o grito - proposito
O Grito, do norueguês Edvard Munch

João, Rubens e Marta (só) são felizes porque acharam seu propósito. Não estão na Terra à toa. Vivem em plenitude, guiados por uma missão que faz a vida ter sentido. João, dono de floricultura, não vende flores. Vende a celebração do amor. Rubens, ortodontista, não trabalha para pagar as contas. Trabalha para recuperar a autoestima de seus clientes e multiplicar os sorrisos na sociedade. Marta, professora de violão, não dá aulas porque é a única coisa que sabe fazer. Dá porque a música alimenta sua alma e a de seus alunos, tornando o mundo um lugar menos boçal, mais cheio de bossa. 

Precisamos falar sobre a indústria do propósito.  

Uma coisa é ter por aí um número razoável de pessoas e profissionais extraordinários compartilhando histórias extraordinárias. Um tanto de gente vocacionada que, graças a uma rara combinação entre talento e gana, fez da vocação obra-prima a ser exibida e inspirar. Um punhado de executivos fora de série que (alerta de modismo) ressignificaram a vida e hoje compartilham aprendizados valiosos. Ouvir quem trabalha — e vive — com entusiasmo, foco e em busca de “algo maior” é um senhor estímulo para pensarmos e repensarmos nossa caminhada. Inúmeras vezes, fui impactado positivamente pelas lições dessa turma. 

Outra coisa é o ataque zumbi a que estamos submetidos. Cursos. Palestras. Livros. Documentários. Lives. Programas na tevê, no rádio, na internet. Tudo em quantidade industrial e boa parte de qualidade duvidosa. ”Encontre Seu Propósito” é o novo “Enlarge Your Penis”. Bobeou, surge um coach irrelevante na sua tela, ensinando por milhares ou centenas de reais a construir “uma trajetória plena e de sucesso, com impacto social”. 

Como resposta à equação “Mercado Cada Vez Mais Competitivo X Busca Por Qualidade De Vida”, transformaram o assunto no fenômeno da paleta mexicana de anos atrás: só se fala nisso, só se vende isso. Experts de araque brotam como ervas daninhas. Gurus da vida plena querem sepultar o picolé e o sorvete de massa. O ordinário. A vida como ela é. 

Ao que parece, agora temos todos, bilhões de profissionais pelo mundo, de encontrar uma atividade que faça nossos olhos brilharem permanentemente, sob o risco de cairmos em depressão ou algo que o valha. Não basta mais — com sorte — se ocupar, ter o salário em dia, férias, bons colegas para uma happy hour, uma ou duas folgas na semana, uma função para chamar de sua e executá-la com esmero. É preciso acordar dando bom dia para o orquidário, acender um incenso de capim-santo e não ver a hora de chegar ao santuário: o trabalho, ou melhor, o local a partir do qual mudamos o universo e a nós mesmos. 

Produto do desconhecimento sobre a complexidade humana e de um oportunismo vendedor de ilusões, esse fenômeno se ancora na ideia de que devemos ser felizes, realizados e agentes de transformação. Durante o expediente, abra um sorriso de orelha a orelha para fazer o bem e se sentir mola propulsora de tempos melhores; e, claro, administre sua agenda de maneira a sobrar tempo para o Pilates, o curso na Casa do Saber, a vernissage, o treino para subir o Himalaia, o “instagramável” trabalho voluntário e o best-seller sobre Ikigai. 

Já que tudo é equilíbrio, seria redentor se houvesse um exército para rebater os Cavaleiros do Propósito. Um exército de estraga-prazeres que mandasse a real. O que diria? Eu, como soldado voluntário, diria que, para a esmagadora maioria dos mortais, a vida é e sempre será dormir menos do que o necessário ou desejado, trabalhar muito e sem grandes paixões pela lida, e fazer um churrasquinho no fim de semana. E tá tudo bem, minha gente.  

É possível, sim, sob tais circunstâncias, ter uma vida satisfatória, que valha a pena, com um equilíbrio de bom tamanho entre prazeres e desprazeres. O que não dá, por óbvio, é para o cotidiano ser insuportável, física e mentalmente. Ninguém precisa encarnar o Sísifo, condenado pelos deuses do Olimpo a rolar uma pedra gigante morro acima para no topo vê-la rolar morro abaixo, num trabalho árduo, repetitivo e sem fim. Da mesma forma, ninguém deveria cair na cantilena de que propósito é um elixir disponível “em 5 passos” nas melhores casas do ramo e condição sine qua non para a vida ter sentido. Será que o sentido da vida não é “apenas” viver? ESTAR E SER, e não (ou muito mais que) FAZER E TER?  

Toda vez que vejo alguém advogando sobre propósito, sem apresentar as devidas ressalvas e ponderações (registra-se que, felizmente, não são poucos os que apresentam), penso em quem se sente pressionado a encontrar o seu e não encontra; em quem o tem, mas está desempregado; em quem não suporta o próprio emprego, mas não pode pedir demissão e não consegue achar outro; em quem considera a maior das dádivas ter um trabalho ordinário capaz de dar conta dos boletos; em quem vai muito bem, obrigado, sem propósito nem missão claros. 

O que a ansiogênica indústria do propósito não conta é que existir tem mais a ver com (sobre)viver do que com qualquer outra coisa — triunfar, inspirar, deleitar-se etc. Estão invertendo as coisas, daí o número crescente de gente frustrada a consumir tarja preta e invejar os stories dos outros. Sinal dos tempos, a busca desenfreada por um propósito nos leva ao que mais tememos: a infelicidade. 

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