Ricardo Arcon: A fábula do mercado sem coração

É tacanho estereotipar os atores da cena financeira como se compusessem um grupo homogêneo, monocromático e indivisível, cujos integrantes se importam unicamente consigo em detrimento dos outros

Por Ricardo Arcon

mercado financeiro - fabula

O Lobo de Wall Street e tantos outros produtos culturais não ajudam. Políticos e jornalistas não ajudam. Parte do próprio setor não ajuda. De modo que ver com desconfiança ou maus olhos quem trabalha no mercado financeiro em geral e no de capitais em particular é tão comum quanto o raiar do dia, sobretudo quando os quesitos avaliados são temas ou valores como boa-fé, responsabilidade social, altruísmo, frugalidade, empatia e respeito ao semelhante que nunca ouviu falar de blue chips e day trade.

O primeiro erro aí é o apreço por generalizações, infâmia que acomete dez entre cada dez ignorantes ou mal-intencionados. O mesmo padrão mental e comportamental está presente naqueles para os quais na China todo mundo come (e odeia) cachorro, no Brasil somos todos desonestos e sexualizados, o pessoal de esquerda quer tudo mamar nas tetas do Estado e quem votou no Bolsonaro é genocida. A incapacidade de identificar e interpretar nuances, aliada ao escudo de achar feio o que não é espelho, faz da certeza equivocada um estilo de vida. “Só sei que tudo sei”, atualizando Sócrates.

Quem são? Como vivem? Do que se alimentam? Como se reproduzem os integrantes da fauna financeira? Na imaginação de muita gente… Uns egoístas imorais entregues à avareza, à luxúria e aos demais pecados capitais, excetuando-se a preguiça. Nesse ponto, são condenados pelo exato contrário: o apego excessivo ao trabalho. Vivem entocados em nababescas salas envidraçadas na solidão do home broker, muitos dos quais fazendo uso de drogas, do Rivotril à cocaína, prática que se estende expediente afora em casas de luxo destinadas aos prazeres da carne. É claro que não se reproduzem por lá, mas no lar, doce lar, para onde voltam com o mais cínico dos semblantes e o bafo de single malt. Entre pagar o almoço de um pedinte famélico e gastar os tubos num Romanée-Conti, se apressam em apanhar o saca-rolhas.

Embora fictícias, as respostas e pensamentos acima podem ser encontrados na fala e na cabeça de uma multidão real. As críticas à Bolsa de Valores e aos ligados a ela deitam raízes no anticapitalismo. No recém-lançado livro “Lições Amargas – Uma história provisória da atualidade”, Gustavo Franco diz que “o Brasil ainda possui uma quantidade obscena de empresas estatais, de obstáculos à importação, de obrigações tributárias acessórias e de tribunais do trabalho”, traços que ele cita para arrematar que o país “ainda está preso a um anticapitalismo selvagem”. Pode-se acrescentar ao trecho a repulsa em larga escala ao mercado e seus agentes, materializada na incipiência do nosso cenário na comparação com a robustez do de nações desenvolvidas. Enquanto no Brasil 3% da população investe em ações, nos Estados Unidos são 55%; no Japão, 45%; na Austrália, 35%.

Fôssemos mais familiarizados com o mercado de capitais, percorrendo suas veredas com habilidade e em maior número, seríamos um Brasil mais bem-educado financeiramente, o que geraria impacto positivo em qualquer avaliação a que nos submetêssemos, do Pisa a uma de crédito no banco da esquina, passando por processo seletivo para arrumar emprego. Entenderíamos melhor o quadro econômico e, por consequência, teríamos elementos para votar e reivindicar melhor. Fora o benefício em relação às contas domésticas. Lembremos da etimologia da palavra: “eco” vem do grego “oikos” (casa); e “nomia”, do sufixo “nomos” (lei/ordem). Em sua origem, portanto, resume a arte de bem administrar a casa.

Divulgada em 2019, a pesquisa S&P Ratings Services Global Financial Literacy Survey (Pesquisa Global de Educação Financeira da divisão de ratings e pesquisas da Standard & Poor’s) promoveu 150 mil entrevistas a fim de avaliar o nível de educação financeira em 140 países. Ficamos na 74ª posição no ranking global, às voltas com Azerbaijão, Bulgária e Uganda. Nos três primeiros lugares figuram, respectivamente, Noruega, Dinamarca e Suécia. Os Estados Unidos aparecem na posição de número 14. Desconfio que esses números tenham algum significado. A boa notícia é que a cada milésimo de segundo surge na internet um novo influencer para nos ajudar a cuidar das finanças. Mais uma má, contudo, é que ele pode ser um oportunista vendendo a ilusão do enriquecimento fácil.

Em vez de se espelhar no que ocorre em países de ponta, o crítico reducionista e maniqueísta do mercado financeiro prefere se aferrar à imagem de que este é o habitat da ganância e do egoísmo. Se pessoas e atitudes terríveis podem ser vistas nele, não é diferente em redações de jornalismo, escritórios de advocacia, estúdios de cinema, centros médicos, diretórios acadêmicos, barracas de pastel, igrejas e ONGs empenhadas em salvar baleias ou araucárias. Duas coisas que todos deveríamos saber: ganhos passados não são garantia de ganhos futuros; e caráter não é característica do coletivo, mas do indivíduo.

Fico pensando em que momento da História se construiu esse estereótipo do analista, gestor, investidor sem coração. Não foi ao longo da primeira temporada de Billions; a coisa é antiga. Talvez remonte à primeira metade do século 17, com sua “tulipomania” em curso, um dos mais conhecidos exemplos de bolha econômica. À época, as tulipas de Constantinopla viraram paixão de endinheirados e mesmo da classe média na Holanda e na Alemanha. A procura por elas, então consideradas símbolos de riqueza e sofisticação, era tão grande, que passaram a ser negociadas na Bolsa de Amsterdã. Será que os tulipa dealers também tinham má fama?

Aqueles que já viam como vilões o mercado e os que dele fazem parte reforçaram suas crenças quando lhes ficou claro que o ecossistema financeiro nacional apoiaria a candidatura de Jair Bolsonaro à Presidência. É outra visão equivocada. Primeiro, porque generalizante. Não houve apoio integral do mercado. Segundo, porque o principal motor do voto pró-Bolsonaro desferido por esse público não foi reacionarismo ou qualquer outra coisa que não pragmatismo: a esperança de que Paulo Guedes implementasse uma agenda liberal.

Fazer o PIB crescer, controlar a inflação, aumentar a renda das famílias, facilitar os negócios, manter as contas públicas sob controle, diminuir o desemprego, entre outras obrigações afins, é o que mais se espera de um político, seja lá qual for sua bandeira político-ideológica: “É a economia, estúpido!”. Em 1992, essas palavras viraram mote da campanha vitoriosa de Bill Clinton à Presidência dos Estados Unidos. Ela traduzia à perfeição o espírito de uma época em que a preocupação com os rumos econômicos se sobrepunha a qualquer outra. (Bolso vazio não enche barriga.) Quase trinta anos depois, há quem ainda não tenha se dado conta da atemporalidade da frase no mundo moderno e de que ela cabe em análises sobre todo país de livre mercado.

Qual é a importância da B3 e congêneres? Para começo de conversa, elas viabilizam a oferta inicial de ações (IPO, na sigla em inglês). Empresas recorrem à abertura de capital para, principalmente, expandir seus negócios. É a injeção de recursos dos investidores, por meio da distribuição primária, que lhes permite crescer, impulsionando, também, todo um entorno. Pense, sei lá, numa farmacêutica. Em um único dia, no debute na Bolsa, ela atrai para o seu caixa dezenas ou centenas de milhões de reais ou até alguns bilhões. Poderá, com o dinheiro, contratar, investir em tecnologia, fazer pesquisas, aumentar suas instalações etc. Com isso, fomentará, ainda, uma cadeia ao redor – o fulano que vende insumos, o beltrano dono de uma terceirizada que presta serviços de TI, o sicrano que faz o melhor PF do quarteirão da empresa. Uma vez listada, a beneficiada pelo IPO terá de entregar resultados para poder se valorizar mais e mais, e, por extensão, atrair investidores, acionistas com os quais dividirá lucros. E, por entregar resultados, leiam-se: fazer uma gestão eficiente, desenvolver e vender produtos, gerar empregos. O comércio de ações dá musculatura a companhias das mais diversas, como siderúrgicas e construtoras, e, em última instância, estimula a economia.

Recentemente, Miriam Leitão deu uma boa definição de mercado, muito apropriada para responder àqueles que adoram ironizar: “Quem é o mercado? Nunca vi! Mora onde?”. As palavras da jornalista e escritora: “Quando a gente fala de mercado financeiro, a gente não está falando de meia dúzia de jovens agressivos da Faria Lima. É muito mais complicado do que isso. Todo mundo que tem dinheiro aplicado, toda a classe média brasileira, todas as empresas brasileiras, todas as pessoas que poupam para sua velhice, para qualquer projeto da sua vida, têm dinheiro aplicado em fundos. E esses fundos são geridos por gestoras de recursos, que fazem produtos financeiros negociados entre os bancos. Então, quando eles buscam a rentabilidade, eles não estão apenas buscando o lucro de meia dúzia de capitalistas. Eles estão querendo proteger o seu, o meu, o nosso dinheiro. Se não entender assim, fica parecendo que tem razão quando falam ‘ah, eles estão fazendo isso aí só para o lucro do mercado financeiro’. Na verdade, é a garantia da proteção do nosso dinheiro”.

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