Ilana Bobrow: Quando a transparência não é virtude

Tem momentos em que a gente precisa parar, respirar e entender o que vamos ganhar com a exposição da verdade absoluta

Por Ilana Bobrow, sócia fundadora e diretora de relacionamento da Vitreo

Duas semanas atrás, assisti a uma palestra do Bob Iger. Para quem não sabe, é o presidente do Conselho da The Walt Disney Company, empresa em que trabalhou por mais de 40 anos, 15 dos quais como CEO. Fiquei fascinada com suas histórias e pelo seu jeito, e, antes mesmo de terminar o vídeo, encomendei seu livro “Onde os Sonhos Acontecem”.

Em determinado momento da palestra, ele fala de uma passagem muito difícil de sua vida e carreira. Estava inaugurando um parque temático em Xangai, quando soube do ataque mortal de um jacaré ao menino Lane Graves, então com dois anos de idade, no Grand Floridian Resort, dentro do grande complexo da Disney, em Orlando.

Iger narra a mistura de sentimentos que viveu naqueles dias. Por um lado, experimentava um dos momentos mais felizes de sua jornada na empresa, com a inauguração de um relevante parque. Por outro, estava extremamente sensibilizado com a tragédia. (Tomou para si a responsabilidade de prestar assistência à família.)

E comenta que aprendeu algo muito importante com aquele episódio: viver um sentimento internamente e externalizar o extremo oposto. Como conduzir um tour de lançamento diante de um fato tão devastador? Era um momento realmente feliz de sua vida profissional, e ele, como principal líder da companhia, precisava transparecer a conquista.

A passagem e seu ensinamento me marcaram. Sou dessas pessoas que exibem “na testa” o que estão sentindo. Como é difícil não transparecer o que se passa na minha mente e coração! Mas, apesar de ainda curta, minha experiência já me ensinou um bocado sobre a importância de não externalizarmos tudo. Ser 100% transparente é uma virtude em inúmeros aspectos, mas também pode jogar contra.

Em 2015, vivi uma situação que ilustra isso. Fui para uma reunião na qual meu objetivo era conseguir dados para potencializar os resultados da minha área. Esses dados ainda não estavam disponíveis. No entanto, o responsável pelo fornecimento deles disse que, sim, já estavam. Mentiu para não pegar mal com seu chefe direto, também presente.

Certa no conteúdo, errei na forma. Em vez de refletir e cuidar do que eu externalizaria, deixei transparecer toda a minha angústia (com a situação) e raiva (com a mentira). Olhando em retrospecto, fica claro que eu deveria ter ocultado esses sentimentos. Ter falado de forma clara, serena, buscando “jogar frescobol, e não tênis”.

Aquela reunião me custou caro. Líderes que antes me eram próximos se afastaram, incomodados com a minha postura – tenho certeza de que o fato de eu ser mulher potencializou o incômodo deles, mas esse assunto fica para um próximo texto. Nunca consegui reverter a impressão que tiveram de mim.

Aprendi, da pior forma possível, a importância de fazer Rapport (entender quem está do outro lado, qual a agenda de cada um e como, serenamente, buscar objetivos), e compreendi que ser 100% transparente nem sempre é virtude.

Recentemente, abri meu perfil do Instagram. A ideia era clara: me comunicar com mais gente, dividir mais, mostrar aspectos da vida de uma mulher empreendedora, mãe, aluna, que se vira nos 30 para aprender e evoluir diariamente. Prometi para mim mesma que eu seria sempre transparente, até para fazer oposição àquela “vida perfeita demais” exibida na rede social. Falo das minhas fraquezas, dos meus dias ruins, mas… Não, não consigo ser 100% transparente. E nem devo. Tem momentos em que a gente precisa parar, respirar e entender o que vamos ganhar com a exposição da verdade absoluta.

Mesma coisa em relação ao meu time. Sou honesta, falo a verdade, dou pista e espaço. Mas não foram poucas as vezes que tive de sorrir e tentar encantá-los estando eu num dia difícil por dentro. Nem sempre quem está comemorando por fora está feliz por dentro. E nem todas as complicações anunciadas são tão complexas assim.

Nossos olhos não enxergam 100% da realidade. E, sabendo disso, muita coisa pode ficar mais fácil. Quanto ao livro de Bob Iger, estou quase terminando. Recomendo a leitura. Tem sido uma experiência incrível.

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