Ilana Bobrow: Chegar é prosa. A jornada, poesia

Mãe de um trio, dona de casa e sócia-fundadora de uma empresa (Vitreo) que acaba de ser comprada pelo maior banco de investimentos da América Latina (BTG Pactual). Nossa colunista mergulha em suas memórias para mostrar que só realiza quem é capaz de sonhar

Jornada - caminho

Era um sábado de sol. Enquanto eu empurrava minha filha no carrinho, caminhava com minha mãe e meu marido. Conversa vai, conversa vem, lancei um assunto sobre o qual vinha pensando nos últimos tempos: a vontade de voltar ao mercado de trabalho. Àquela altura, estava fora havia quase três anos, período devotado à incrível aventura de ser mãe.

Intensa que sou, sempre tive dúvida se eu seria capaz de administrar maternidade e carreira juntas. Para mim, trabalho era ficar no escritório das oito da manhã às oito da noite, viajar a negócios, estar sempre disponível.

Cresci com uma mãe 100% entregue e presente, e sei dos benefícios dessa fonte inesgotável de amor. Não queria voltar para qualquer projeto. Tinha experimentado algo muito grandioso, intenso, de modo que muita coisa me parecia “prêmio de consolação”.

Importante destacar: tenho consciência do quão privilegiada sou por ter tido a chance de ficar um tempo “parada”, me dedicando à família. Serei eternamente grata por isso. Meu sonho dourado é viver num mundo em que mais pessoas possam, se quiserem e precisarem, fazer o que fiz.

Pensar em voltar à labuta era complexo. Até então experimentara a Ilana 100% profissional e a Ilana 100% mãe. Não sabia como seria fundir as duas. E confesso que não me sentia totalmente realizada e preenchida com a maternidade e vida de dona de casa.

Demorei para conseguir admitir isso em voz alta. Quando consegui, foi uma das viradas de chave mais importantes da minha vida. E, bem naquele momento, uma oportunidade maluca parecia estar surgindo. Mas, como falamos no mercado financeiro, estava ainda muito “fora do dinheiro”.

Era a possibilidade de criar algo grande, com enorme potencial, em um business que eu conhecia e com pessoas nas quais confiava. Três pilares que traziam sentido para mim. Lembro-me da frase da minha mãe: “Se isso der certo, eu paro de trabalhar para você voltar. Dá para ver o brilho nos seus olhos”. Sempre falei com os olhos.

As coisas foram caminhando, engravidei do meu segundo filho, e aquele sonho distante foi ficando cada vez mais “no preço”. A ideia, então, saiu do papel. Criamos nome, conceito, desenhamos o escritório. Éramos 12 pessoas, todas com o mesmo propósito: transformar a relação dos brasileiros com seus investimentos.

Batalhamos muito, crescemos, evoluímos. Sobrevivemos à pandemia, aos problemas operacionais, aos conflitos; ajustamos a rota inúmeras vezes. Do lado pessoal, me reencontrei comigo mesma. Com a Ilana motivada por projetos, sonhos e desafios. Como diz o Patrick, meu sócio, o “bichinho me picou novamente”.

Montei times, aprendi a liderar, focar no estratégico, bancar decisões, entender rapidamente novos conceitos. Aprendi a conciliar maternidade e carreira – um aprendizado e desafio ainda mais especiais em tempos a pandemia. Compreendi que é possível ser uma fonte inesgotável de amor sem estar presente o tempo inteiro.

Três anos depois, anunciamos nesta semana a venda da Vitreo para o BTG Pactual, o maior banco de investimentos da América Latina. É aquela história: cuidado com seus sonhos…

Trazendo à memória aquele sábado e repassando toda a minha história pré-Vitreo, vejo quantas lições ficaram. Talvez as duas maiores sejam: 1) Não importa o que a gente faz, mas com quem faz; 2) O dia da chegada é muito bacana. A gente recebe um reconhecimento que faz bem. Mas o que realmente importa, e me realiza, é a jornada até ele.

Sou e serei eternamente grata aos meus sócios, vidrad@s e clientes. Vocês me permitiram viver uma jornada incrível. Valeu demais.

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