Entrevista Crania: Leonardo Teixeira e Renato Valente, sócios da Iporanga Ventures

Fundada em 2009, a Iporanga nasceu como uma gestora de fundos quantitativos. Dois anos mais tarde, estreava no mercado de venture capital, modalidade de investimento focada em empresas jovens, com base tecnológica e alto potencial de crescimento.

O primeiro cheque foi para a Quero Educação. Em 2013, a contemplada, ainda no “PowerPoint”, foi a Loggi, que em seis anos se tornaria um unicórnio, ao ser avaliada em mais de US$ 1 bilhão. Atualmente, a Iporanga faz a gestão de R$ 600 milhões, aportados em mais de quarenta startups. 

Nesta entrevista, os sócios Leonardo Teixeira e Renato Valente (os outros dois são Guilherme Assis e Leo Kalim) falam sobre o bom momento do setor, refletem a respeito das mudanças trazidas pela pandemia e explicam por que o Brasil não é para amadores.  

No ano passado, o montante aportado em venture capital superou o em private equity. Qual é o significado disso para o cenário de inovação no Brasil?  

Leonardo: Isso mostra muitas coisas. Entre elas, o rápido amadurecimento de uma nova classe de investimento; o avanço da tecnologia, cada vez mais presente na vida das pessoas e das empresas; a melhoria do ecossistema de inovação brasileiro; e como temos ótimos empreendedores — empreendedores que estão atacando os problemas e aproveitando as oportunidades, na América Latina e mundo afora. Se no ano passado esse foi o primeiro ponto de inflexão, no primeiro trimestre de 2021 vimos os investimentos de venture capital representando quatro vezes os de private equity. Claro que existe uma zona cinzenta na classificação de deals entre VC late stage e PE, mas o fato líquido é uma tendência de crescimento de investimentos em VC que não deve arrefecer pelos próximos anos. 

 

Como vocês avaliam o desempenho da Iporanga em 2020, e em que momento ela está hoje? 

Renato: Em que pesem toda a tristeza e as perdas humanas que tivemos, no âmbito da nossa atividade a pandemia funcionou como um catalisador muito poderoso de tendências, mentalidade e modus operandi, abrindo espaço para oportunidades e soluções novas. Encurtamos tempos e distâncias; aceitamos a entrada da telemedicina; entendemos que a forma de trabalho híbrida é possível; estamos repensando nossas formas de educação e de comunicação técnica; vimos o varejo online explodir. Em resumo, a sensação que temos é de estarmos passando por um portal que realmente separa o mundo em antes e depois. Nesse contexto, 2020 para a Iporanga foi um ano excepcional com um deal flow muito forte: dez investimentos concretizados, cinco empresas que passaram pela Y Combinator, nenhum write-off, novos investidores chegando à casa e inúmeros elogios ao nosso trabalho. Mas isso não foi construído do dia para a noite. É resultado de um trabalho bem-feito, de bons investimentos e de boas conexões com empreendedores fantásticos.   

Leonardo: O momento atual da gestora é de expansão. Este é o segundo ano cheio de operação do nosso segundo fundo, e, até aqui, o portfólio tem 20 investimentos no total. Naturalmente, com o aumento da operação, aumenta a complexidade de gestão dos diversos stakeholders e a diversidade de situações a nos demandar. Até por isso estamos fazendo contratações. Mas essa situação não é novidade. Conhecemos bem o métier. Temos neste ano pelo menos mais seis, sete, oito investimentos novos pela frente, fora follow-ons e SPVs. Ou seja, temos muito trabalho.  

Como estão as startups investidas pela Iporanga? Quais cases se destacam?  

Renato: O portfólio vai muito bem, estamos bem empolgados. A pandemia acelerou os negócios no geral. Mesmo empresas que tiveram o mercado bastante afetado, como a VOLL, conseguiram crescer. O que mostra a qualidade dos empreendedores com os quais nos relacionamos. A VOLL é uma empresa de mobilidade corporativa, que conecta todos os apps, Uber, 99, Cabify, Wappa etc, em uma única interface. Ela focou na demanda de hospitais, laboratórios, empresas de alimentos, e conseguiu continuar crescendo.  

Leonardo: Outro grande destaque é a Bxblue, um marketplace de crédito consignado público. Cresceu dez vezes na pandemia, pois os concorrentes de pessoas físicas não puderam sair na rua para vender o crédito. A fintech aproveitou e criou um produto white label para que essas pessoas conseguissem vender o crédito de forma online. Só para contextualizar, nós investimos na empresa em maio do ano passado, e, em dezembro, ela já havia levantado um Series A de USD 7 milhões, liderado pela Igah Ventures. Tivemos também empresas que foram para a Y Combinator, como a Gonddo, um marketplace B2B para o varejo independente. Com a solução criada por eles, a pequena loja da esquina agora pode ter uma enorme quantidade de produtos de pequenas indústrias para ofertar a seus clientes, tendo ainda um componente de prazo de pagamento que a Gonddo oferece para as lojas. Outro destaque foi a Stark Bank, uma API para gerir altos volumes de pagamentos. A fintech viu seu volume quintuplicar no ano, uma vez que seus clientes da gig economy cresceram muito. 

Investir numa startup em seus estágios iniciais é uma decisão acertada? Como ponderam os riscos envolvidos? 

Renato: É uma decisão acertada, mas não uma estratégia fácil. Nem do ponto de vista operacional, nem do ponto de vista de tomada de posição. À primeira vista, parece ser mais fácil, porque os cheques são menores, o deal em si é mais simples, com a rodada feita com SAFE ou Convertible Note. Mas é super trabalhoso, pois aqui estamos avaliando muitas e muitas empresas para fazer poucos investimentos. No ano passado, analisamos mais de mil empresas para depois investir em dez. E não é fácil, porque não há muitos dados, nada é óbvio nessa fase. De cada dez rodadas de investimento, lideramos nove, diferente de muitos fundos que somente coinvestem e seguem. Isso nos impõe ônus e bônus.  

Leonardo: Falando de riscos, no estágio em que entramos nas empresas, muitas vezes na fundação delas, existem muitas hipóteses, algumas evidências e quase nenhuma resposta. A favor do modelo de venture capital, existe uma assimetria brutal de payoffs em cada investimento realizado (perda pequena por investimento versus ganho desproporcional potencial). Porém, também existe uma baixa probabilidade de encontrar os “home runs”. Você tem que constantemente tentar melhorar suas probabilidades, seja realizando boa seleção, boa atração ou boa adição de valor às empresas investidas. Ponderar riscos aqui é avaliar de forma iterativa e heurística uma centena de variáveis, mas sobretudo tese, timing e time. Esse tipo de análise tende a ser melhor entre investidores que têm um “muscle memory” maior, por já terem visto muita coisa. Nós investimos há mais de dez anos, já fizemos mais de setenta investimentos somados, seis veículos de tecnologia montados, temos experiências diversificadas e complementares, e, portanto, temos essa experiência de como fazer venture capital no Brasil a nosso favor. Claro que é impossível acertar todas, mas nosso track record fala por si. Existe sorte também, como tudo na vida.  

Renato: Os melhores empreendedores buscam os melhores investidores, e para ser um investidor de ponta você precisa investir nos melhores empreendedores. Uma vez que o ciclo é criado, a reputação reverbera no mercado, e o fundo fica em uma posição bastante privilegiada.  

Quais foram os principais movimentos em 2021 e o que vocês planejam para os próximos meses? 

Leonardo: O ano começou bem acelerado, como os números mostram. Até abril, o valor de investimentos novos da indústria já correspondia a 70% do total do ano passado. No momento em que damos esta entrevista, temos duas empresas anunciadas, duas em vias de serem anunciadas, e quatro term sheets assinados com ótimos empreendedores. Em fevereiro, montamos uma SPV para investir na Série F da Loggi, e no momento estamos em discussão sobre mais uma SPV. Como dissemos anteriormente, nosso desafio, que é um ótimo problema, é continuar escalando o business de forma organizada e mantendo uma qualidade alta de ajuda ao portfólio de investidas. A expectativa é fechar o ano com um total de dez a doze deals novos.  

Como é fazer venture capital no Brasil? Dá para comparar com o que ocorre nos Estados Unidos, por exemplo?  

Renato: O Brasil é um lugar bastante interessante para fazer venture capital. É um país grande, com uma população bastante ativa, digitalmente falando, criativa e empreendedora na média. E, também, com problemas e desafios diversos. Tendo mais de 210 milhões de habitantes, o país permite a criação de grandes negócios em contextos B2C ou B2B, e, por isso, dá para fazer grandes empresas por aqui e ganhar muito dinheiro com elas. Ou seja, o país tem os elementos necessários para o crescimento da atividade. Por outro lado, tem suas particularidades e suas jabuticabas, além de ser um estado muito grande. Entender muito bem como anda a regulação nos mais diversos mercados é importante, pois o timing de uma nova lei pode acelerar ou inviabilizar oportunidades de forma instantânea. Outro ponto é que não dá para operar aqui como nos Estados Unidos, assumindo que as empresas vão se refinanciar com facilidade, pois não temos uma alta densidade de capital e variedade de fundos nos diversos estágios de financiamento. Nos Estados Unidos, o tamanho da indústria de VC, em termos de capital investido por ano, representa 0,75% do PIB. No Brasil, 0,18%. Ou, em valores absolutos: US$ 150 bilhões contra aproximadamente US$ 3 bilhões. Ou ainda: mil fundos de VC contra menos de 100. Por fim, sendo o Brasil um país com constante instabilidade política e volatilidade macroeconômica, não é todo business que passa ileso. O Brasil não é para amadores. 

Quais setores merecem atenção neste momento?  

Leonardo: São muitas oportunidades. No ano passado, a saúde digital teve um boom, e a telemedicina finalmente foi permitida, e, na nossa opinião, veio para ficar. Muitas coisas estão sendo construídas em cima desse paradigma. O PIX está aí e temos o open banking sendo implementado, o que abre oportunidades em serviços financeiros para diversos challenger banks. O mercado de investimentos tem passado por uma verdadeira batalha pelo acesso ao cliente, com agentes autônomos sendo disputados pelos bancos. A Susep vem fazendo movimentos para a concorrência e trazendo flexibilidade nos seguros, incentivando também a desconcentração e competição no setor. Cripto e blockchain estão ficando mais mainstream e sendo endossados por investidores de peso, bancos e empresas; e a tokenização de ativos via NFT’s está tendo um momento de expansão.  

Renato: Tem mais: muitas DNVB’s estão surgindo e apresentando oportunidades novas e produtos interessantes ao consumidor. O comércio eletrônico quase dobrou no ano passado e agora o Live Commerce parece ser uma nova fronteira a ser explorada. O agro, vocação nacional, é um mercado enorme com oportunidades em novas formas de financiamento, de digitalização de processos e títulos, monitoramento de garantias e rastreabilidade. No que diz respeito ao impacto da sociedade no meio ambiente, estamos atentos a iniciativas na esfera do ESG. Nas telecomunicações, um acontecimento que será transformador para toda a sociedade é o leilão do 5G, que vai abrir oportunidades imagináveis e inimagináveis, sobretudo permitindo muito IOT. A educação passa por um momento de reinvenção da sala de aula e dos cursos. A forma de trabalhar mudou com a pandemia, e, nesse sentido, têm surgido ferramentas e soluções para apoiar o trabalho remoto. A pandemia afetou também a relação das pessoas e empresas com o setor imobiliário, causando algum êxodo urbano e desafiando a gestão de espaços pelas empresas.  

O que a Iporanga tem no radar para os próximos meses? Para que tipo de startup vocês estão olhando? 

Renato: Estamos buscando ótimos empreendedores, em grandes mercados; profissionais com o desejo de redefinir profundamente o modo como esses mercados operam. É bem simples!  

  

O que esperar para o venture capital no país em 2021?

Leonardo: Mais um ano recorde de investimento. Deve dobrar em relação ao que se teve em 2020. Projetamos também um ano muito forte para M&As e IPOs em tecnologia. Na linha das ofertas públicas, teremos mais SPACs e alguns IPOs de fundos. G2DI, Investech, os primeiros…  

Renato: Acreditamos que mais plataformas distribuirão fundos de VC e que novos fundos de fundos serão incorporados. A XP acaba de montar um. Por fim, deve continuar a tendência de mais fundos americanos vindo operar no Brasil a partir de Series A’s, caso, por exemplo, do Union Square Ventures, que recentemente fez um debut na região investindo no Alt.Bank. E temos visto uma conversa ativa de fundos americanos, europeus e asiáticos com o nosso portfólio. 

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