Ilana Bobrow: O novo líder e o império da liberdade

É compartilhando informações, riscos, sucessos e fracassos que o líder empodera sua equipe

Por Ilana Bobrow, sócia fundadora e diretora de relacionamento da Vitreo

líder de equipe

Comecei o livro da Netflix em janeiro. Como não é incomum por aqui, acabei parando no meio, assim que voltou o mestrado. Achar tempo para a leitura é sempre um desafio. Afinal, são 3 filhos, trabalho, casa, marido, estudos e, se possível, esporte, papo com as amigas… Tudo isso respeitando as desejadas oito horas de sono por dia.

Retomei na semana passada, tão logo as aulas terminaram. “A Regra é Não Ter Regras” é um título bem interessante para uma pessoa tão controladora quanto eu. Cresci com regras e gosto de criar regras e processos para tudo, até para o que não precisa.

Rico em ensinamentos, o livro disseca a filosofia da “liberdade com responsabilidade”. E pontua três grandes pilares para que o conceito possa ser colocado em prática numa corporação: desenvolver a densidade de talentos, estimular a sinceridade e remover os controles. Segundo Reed Hastings, autor da obra e CEO da Netflix, o processo deve ocorrer na ordem acima.

A leitura me levou não só para dentro da cultura organizacional da companhia americana, como também para dentro do lugar em que trabalho: após três anos de uma empreitada em franco crescimento, metade deles sob uma pandemia global, talvez eu tenha aprendido a operar um pouco mais perto do limiar do caos. Ah, as regras…

Muito do que li consigo enxergar no meu dia a dia na Vitreo. Nesse período, fomos de 12 para 183 funcionários; hoje são mais de 100 mil clientes ativos e R$ 11 bilhões sob custódia. Na mesma velocidade, tornamos líderes os profissionais que se destacavam. Uma enorme oportunidade, e um grande desafio.

No meu caso, apesar de ser sócia e diretora desde o começo da empresa, foi ao longo de sua história (ainda curta, mas intensa e cheia de possibilidades) que me desenvolvi líder. Um parêntesis: é incrível como a maternidade nos traz skills nesse sentido.

Mesmo antes de ter de liderar, eu já sabia que contar com um time de ponta é a única forma de fazer com que o dia tenha mais de 24 horas. A oportunidade de desenvolver pessoas e de ajudar a potencializar o que cada um tem de melhor se tornou um dos meus principais combustíveis. Minhas grandes realizações têm sido justamente as conquistas do meu time, formado por quase 50 pessoas.

O que eu e elas estamos vivendo e os relatos presentes no livro reforçam minha crença de que a liberdade é o principal caminho para a responsabilidade. E não o contrário. Ao ter voz e espaço, cada pessoa se sente parte do todo e busca os melhores resultados. Nesse processo, cabe ao líder apontar caminhos e objetivos. Liderar com contexto e não com controle.

É compartilhando informações, riscos, sucessos e fracassos que ele empodera sua equipe. E isso só é possível com transparência, fundamental para exercer liderança, formar equipes de excelência e atingir metas. Transparência, inclusive, em relação às nossas vulnerabilidades. Este é outro tema no qual tenho me aprofundado.

Nos últimos tempos, ficou claro que, quanto mais mostro minhas vulnerabilidades, fraquezas e dúvidas, mais me conecto com meu time. Antes, pensava o contrário. Que mostrá-las me enfraqueceria. Como se chefe tivesse a obrigação de ter todas as respostas. O mundo mudou.

O sucesso da Netflix não é à toa. Eles conseguiram se reinventar e inovar no modelo de negócio. E, na minha visão, isso está intrinsicamente ligado à cultura organizacional – o novo papel do líder, de ser transparente e acessível e tratar todo mundo como “gente grande”.

Especialmente quando se fala em inovação, cultura é o grande diferencial de uma empresa. É ela que faz com que profissionais dos mais variados perfis se unam em torno de um objetivo comum. Que a “A Regra é Não Ter Regras” e o pessoal da Netflix levem essa mensagem tão longe quanto ela possa chegar. Talvez seja das mais importantes para quem deseja construir algo relevante.

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